Princípios Tradicionais: Manifestação

Chegando aos temas tradicionais, é importante ter em vista alguns conceitos que podem ser elaborados como ‘princípios básicos’ ou meramente ‘princípios’, sendo passível a acusação de pleonasmo nessa primeira postulação dada a basicidade do próprio termo empregado. Em suma, abordarei uma sequência de elaborações que correspondem a nada em particular que esteja catalogado em algum material enciclopédico ou didático, em verdade, não há como catalogar tais conceitos pelo simples fato de não serem passíveis de materialização, e aqui está a maior questão a qual teremos de nos ater. Princípios Tradicionais não são conceitos como compreendemos no mundo moderno, na verdade, não há como utilizar as palavras sem nenhuma forma de discriminação na modernidade, qualquer que sejam as possibilidades, o uso da língua corrente moderna, independente do país de origem dessa língua, está sujeita a uma série de preconceitos modernos, inferências feitas em base do uso inadequado de diferentes termos. Nessa perspectiva, iremos tratar das palavras com o máximo de cuidado, sempre situando significativa e etimologicamente quando necessário o uso de determinados termos, seja no idioma que for, em particular para determinadas circunstâncias prescritas.

Assim sendo, temos uma dicotomia a tratar em um primeiro momento, uma dicotomia elaborada por nenhuma condição extrínseca as circunstâncias, mas intrínseca. É mandatório então elaborarmos primeiramente sobre o conceito de manifestação; este sendo usado na atualidade de modo ainda relativamente preservado; manifestação (do latim manifestatio) encontra cognato na palavra sânscrita Prakriti (प्रकृति), essa por sua vez é contraria a palavra Purusha (पुरुष) também de origem sânscrita. Aqui temos o ferramental para perscrutar nessa questão com maior habilidade. Prakriti significa várias coisas distintas. O sânscrito como língua mais antiga que se tem registro ainda em uso ativo (mesmo que apenas ritualístico) é um idioma cheio de palavras com significados objetivos e subjetivos; objetivamente pode-se dizer que prakriti é natureza, já subjetivamente o contraste é grande, sendo encontrada a melhor tradução possível como sendo substância. Porém, em verdade, nenhum desses significados podem abarcar o verdadeiro sentido Tradicional da palavra, o melhor que podemos fazer para tal é conservar seu sentido na oposição com a palavra purusha, esta tendo uma definição ainda mais complexa, significa em última análise princípio masculino, logo, podemos inferir que prakriti seja o princípio feminino. Como escreve René Guénon: “Se em respeito ao ser que nós agora consideramos como ‘essência’ correlativamente à ‘substância’, estes dois aspectos sendo complementários um para o outro e correspondendo a aquilo que podemos chamar os dois polos da manifestação universal (o que equivale a dizer que elas são as respectivas expressões de Purusha e Prakriti nessa manifestação) …” (Étude sur l’Hindouisme, 1966).

Os níveis que compreendemos como realidade são diversos, isto é, existem graus, níveis e estágios da manifestação onde conseguimos em determinadas circunstâncias nos colocarmos em diferentes frequências destes graus, níveis e estágios. Quando tratamos de Tradição (com T capital) estamos nos referindo ao princípio último, a transcendência imanente, a condição de classificação da realidade dentro de todas as suas possibilidades e realidades. Para simplificar, há dois mundos, um mundo manifesto e um não-manifesto, um criado e um não-criado; dentro da terminologia filosófica clássica: um móvel e um imóvel, prakriti e purusha. Qualquer tentativa de negação dessa questão é vã, dado que a condição de dúvida é uma condição que pertence ao mundo da manifestação, logo, é impossível de se tratar o não-manifesto, purusha, com as mesmas ferramentas e mecanismos que estamos habituados a tratar nesse mundo; lógica e matemática não tem sentido algum quando colocadas no nível dimensional da realidade de purusha, é apenas em prakriti que, dadas as condições específicas, esses mecanismo podem operar, não existe ponto de intersecção entre esse mundo e o outro que não sejam as duas noites, isto é, o nascimento e a morte. Novamente citamos Guénon: “Essa passagem é em si mesma um único ponto, mas pode naturalmente ser prevista de ambos os dois estados entre os quais está situado e dos quais é limite comum. Aqui novamente pode-se encontrar as duas faces: esta passagem pode ser uma morte no que diz respeito de um desses estados, enquanto pode ser um nascimento no que diz respeito ao outro; mas essa morte e nascimento coincidem na realidade e a distinção entre elas existem apenas no que diz respeito aos dois estados, um no qual há seu fim e no outro seu início no mesmo ponto.” (Initiation et Réalisation Spirituell, 1952).

Assim sendo, podemos tirar algumas conclusões prévias: primeiramente, o princípio da manifestação diz respeito a essa realidade e tudo o que ela comporta, todas as coisas que existem no universo estão compreendidas nesse nível de manifestação; segundamente, a não-manifestação não é uma antítese da manifestação, mas um outro nível, nível este em que o princípio de manifestação está compreendido, isto é, o manifesto é o reino da quantidade, o mundo da mobilidade de Heráclito. Na relação desse mundo com o mundo não-manifesto temos o que é compreendido como manifestação universal, em outras palavras, o princípio último que na linguagem Tradicional chama-se de ‘Deus‘, no sentido que se deseja aplicar de Parabrahman (परब्रह्म). Aqui temos o princípio do fim, pois em todas as formas tradicionais (isto é, religiosas) temos a concepção dessa manifestação universal dentro da condição de Divindade. Cabe então situarmos esse aspecto do mundo manifesto que chamamos aqui de formas tradicionais ou religião.

As religiões do mundo se apresentam com diferentes formas e aspectos, que exteriormente podem parecer irreconciliáveis, porém, utilizando-se de um princípio específico denominado de esoterismo, podemos encontrar os princípios superiores que regem esses princípios inferiores que encontramos nas tradições exotéricas, isto é, pode-se reconciliar as diversas formas tradicionais não por aspectos extrínsecos, mas intrínsecos; quanto mais caminhamos para o centro de uma determinada Tradição, mais ela aparenta unidade com as demais. Como escreve Frithjof Schuon: “A presença de um núcleo esotérico numa civilização que é especificamente exotérica em caráter garante a ela um desenvolvimento normal e o máximo de estabilidade; este núcleo, contudo, não é em nenhum sentido uma parte, nem mesmo uma parte interna do exoterismo, mas representa, ao contrário, uma dimensão quase independente.” (De l’Unité Transcendante des Religions, 1948).

Em síntese, os aspectos do mundo da manifestação, prakriti, só podem ser compreendidos em relação a sua dimensão da não-manifestação, purusha, com o uso das vias das formas tradicionais, as quais conseguimos identificar nos dois aspectos exotérico e esotérico, este primeiro é o ponto exclusivamente manifesto da realidade Tradicional, o segundo é o aspecto não-manifesto, o aspecto que mais aproxima o homem de uma apoteose absoluta com o Divino, qualquer que seja a religião, o ponto máximo desta está na união transcendente com o Divino, com a realidade última que compreendemos como Deus; a individuação para união com a realidade suprema, esta sendo a única forma de libertação da condição de manifestação e não-manifestação, a qual a Tradição Hindu denomina de Moksha (मोक्ष), isto é, liberação.

Para as finalidades que nos cabem aqui esta é a conclusão objetivada. Para o fundamental dos demais Princípios Tradicionais é indispensável que se tenha em vista esse primeiro princípio compreendido aqui como ‘manifestação’; cogitei iniciar essa série de análises com a concepção da realidade metafísica, pois ora, seria estranho demais para o moderno partir dos pressupostos primeiros (algo que seria o natural para o Homem Tradicional), desse modo, resolvi aqui expor os princípios da Doutrina Tradicional não pelo início, o não-manifesto, mas pelo final, a realidade manifesta, pois assim o ponto de atrito das dissimilaridades são menores. Para encerrar, vale uma citação de síntese para o ponto de discernimento feito a respeito da consagração do princípio de manifestação como sendo parte inerente da construção da realidade material, de modo a se apresentar como um princípio substancial para toda a existência no mundo das possibilidades, o reino da quantidade, ou Samsara (संसार). Como escreve Guénon: “Em qualquer caso, materia (no sentido aristotélico), como um princípio universal, é pura potência onde nada é distinguido ou ‘atualizado’, e o qual constitui o ‘suporte’ passivo para toda a manifestação; é, portanto, nesse sentido, precisamente Prakriti ou substância universal… Substância, entendido em um sentido relativo como sendo aquilo o qual representa analogicamente o princípio substancial e faz sua parte em relação a uma ordem de existência mais ou menos restrita…” (Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps, 1945).

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