Formas Tradicionais: Hinduísmo

Dentre todas as Tradições, a mais antiga é aquilo o que compreendemos hoje como Hinduísmo, ou em forma mais abrangente, Doutrinas Hindus. Este nada mais é do que um corpo de práticas e doutrinas antiquíssimo e extremamente conciso. Trata-se de uma Tradição entendida nos termos da ortodoxia das Tradições globais como a mais antiga, e por consequência, aquela mais próxima da ‘Tradição Primordial’ mencionada pelos tradicionalistas, esta também conhecida como ‘Tradição Hiperbórea’. No entanto, a palavra ‘Hinduísmo” não compreende inteiramente essa doutrina milenar, pois é um termo gerado na modernidade, e por isso é muitas vezes intercambiada com a palavra ‘Brahmanismo’, que é justamente o corpo doutrinário básico para determinar a religião que segue os Vedas.

Os Vedas (वेद) são o corpo literário principal do Brahmanismo. Atribuídos aos Shruti (श्रुति), que significa literalmente “aquilo que é ouvido”, compõe uma série de textos tidos como revelados diretamente pelo Divino. Os principais Vedas são quatro: Rigveda, Yajurveda, Samaveda e Atharvaveda; os Shruti ainda são compostos pelos Samhitas, Brahmanas, Aranyakas e Upanishads, este último sendo a base principal para o darshana denominado como ‘Vedanta’, o qual falaremos adiante. Ainda vale mencionar os textos que são às vezes denominados como o “Quinto Veda”, são estes os Tantras; textos tardios que vieram a incorporar a tradição canônica dos Shruti, porém não são utilizados amplamente a não ser pelos que se denominam parte da corrente do Shivaismo. Como escreve Julius Evola: “A intenção era transmitir a ideia de que o Tantrismo representa uma extensão ou um desenvolvimento adicional daqueles ensinamentos tradicionais originalmente encontrados nos Vedas, e posteriormente articulados nos Brahmanas, Upanishads e Puranas. É por isso que os Tantras reivindicaram para si a condizente dignidade como um “Quinto Veda”, isto é, uma revelação adicional além do que é encontrado nos quatro Vedas.” (La Yoga Delia Potenza, 1968).

Temos na composição textual básica dessas doutrinas ainda uma segunda categoria de textos, esta é, no entanto, atribuída a autores específicos, porém todos tidos como inspirados, o que preserva a autenticidade dos documentos enquanto de origem superior. Os Smriti (स्मृति), literalmente “aquilo o que é lembrado”, são uma classe secundária de textos que não configuram necessariamente o Brahmanismo, porém são usufruídos por outras escolas doutrinárias e eventualmente pelo próprio Brahmanismo, porém com autoridade subordinada aos Shruti. Aqui temos alguns dos textos mais célebres encontrados na Tradição Védica, como os seis Vedangas, os épicos do Mahabharata e Ramayana, os Puranas e o próprio Bhagavad Gita, este sendo talvez o texto mais conhecido da Índia, está presente dentro do Mahabharata, sendo um trecho dos eventos passados. Ambos, Shruti e Smriti, são compostos em sânscrito.

Em síntese, as Doutrinas Hindus orientam-se através dos textos védicos, isto é, os quatro Vedas. Existem ainda outras doutrinas, por isso se faz necessário o uso do termo ‘Doutrinas Hindus’, no plural, pois é vasta a gama de divisões dos seguidores dos Vedas, e por consequência há uma grande quantidade de textos e fórmulas de segunda e terceira ordem. Um exemplo é o próprio Budismo, que ao que tudo se pensava nos primórdios de seu surgimento seria uma nova vertente dos Vedas, porém se mostrou uma Tradição totalmente à parte; mesmo que os sábios do Brahmanismo escalem o Buda como um Avatar sucessor de Krishna, o Budismo se encontra em pé de igualdade do ponto de vista de Tradição com o Brahmanismo. Teremos um texto para explorar exclusivamente o Budismo e seus desdobramentos em sequência do Hinduísmo. Porém, deixaremos aqui uma passagem que fortalece essa distinção feita por Ananda Coomaraswamy: “Não é para estabelecer uma nova ordem, mas para restaurar uma mais antiga que o Buda desceu dos céus.” (Hinduism and Buddhism, 1943).

Brahma & Ishvara

Portanto, dadas as bases fundamentais daquilo o que é o Brahmanismo, cabe aqui fundamentar a doutrina metafísica que permeia essa Tradição. Neste ramo temos duas denominações as quais cabem ressaltar: Brahma (ब्रह्म) e Ishvara (ईश्वर), o primeiro é a Realidade Suprema, é o Divino em sua condição de não-manifestação, eterno, incriado, imóvel; Ishvara, por sua vez, é a manifestação do Princípio de Brahma, em síntese, é toda a manifestação. A distinção pode ainda ser feita com os termos ‘Parabrahma’ e ‘Aparabrahma’, respectivamente ‘Brahma Supremo’ e ‘Brahma não-supremo’, e ainda temos o termo Brahmā, com um grafema sobre o ‘a’, que denota o primeiro princípio da Trimúrti (त्रिमूर्ति). Importante notar que a grafia de ‘Brahma’ está dada não como ‘Brahman’, o que é usual entre os orientalistas, por uma questão de aproximação, pois este termo com a adição de um ‘n’ ao final denota ambos os gêneros linguísticos neutro e masculino, o que dificulta o entendimento de qual é o Brahma (incriado) e qual é Brahmā (criado).

Para colocar ordem ao caos, cabe explicar os pormenores daquilo que se entende no Hinduísmo como Trimúrti, isto é, os três aspectos de Ishvara, também compreendidos como os três princípios da manifestação de Brahma, a Divindade Suprema. Brahmā (ब्रह्मा) é o primeiro aspecto de Ishvara, considerado como o princípio produtivo dos seres manifestos, como uma espécie de força vital, ou Ātma (आत्‍मा), que é usualmente traduzido no Ocidente como ‘Espírito’. Os dois aspectos seguintes são complementares um ao outro, sendo eles Vishnu (विष्णु), que é Ishvara como princípio animador, isto é, doador de alma aos seres manifestos, e representante do princípio de preservação do Ser; já Shiva (शिव), por sua vez, não é princípio “destrutivo”, como alegam alguns orientalistas, mas ‘transformador’. Dentro do escopo das possibilidades, cada aspecto de Ishvara se torna um meio, uma senda para a prática ao alcance da realização espiritual, cada qual por uma via distinta e com seus ‘pontos de vista’ adequados para um mesmo objetivo comum: o cumprimento do Dharma (धर्म) e realização da Doutrina.

Vaishnavismo & Shivaismo

É importante notar da natureza de Brahma os dois aspectos entre sua própria realidade, não-manifesta, e Ishvara, como sua realidade manifesta. O Princípio Supremo tem essas duas características de impessoal e pessoal, dependendo se o referencial é Brahma ou Ishvara. É essencial a compreensão desse ponto em um primeiro momento para se separar aquilo o que é Advaita (अद्वैत), isto é, o não-dualismo, uma vertente que identifica a natureza única de Brahma e configura padrões metafísicos muito próprios daquilo que é a realização espiritual. Todas as tendências das Doutrinas Hindus que buscam essa realização são Advaita, por uma necessidade intrínseca do processo de libertação.

Vaishnavismo e Shivaismo são duas vertentes da realização de Brahma através dos seus aspectos da Trimúrti que não sejam a entidade manifesta Brahmā. Em síntese, são derivações posteriores dos Vedas, pois a forma “base”, se é que se pode falar de uma forma mais “pura” da doutrina, está expressa no Brahmanismo original, porém todas essas derivações são canônicas e ortodoxas frente à Tradição. Os Vaishnavas são orientados mais pela contemplação, e utilizam amplamente os Puranas para suprir suas práticas; já os Shivaistas são orientados pela ação, e utilizam-se dos Tantras como texto base de suas atividades espirituais. Todas essas interpretações dizem respeito a manifestação da “Presença Divina”, relativa a Shekhinah (שכינה) da Tradição Hebraica, reconhecida na Tradição Védica como Shakti (शक्ति), a qual deriva a doutrina tântrica do Shaktismo, porém não haverá espaço para explorar esse tema aqui, que exige uma explicação mais ampla e complexa do Tantra como um todo. Nesse tocante, René Guénon nos informa: “O ‘Aspecto Divino’ é cada qual considerado dotado de um poder ou energia próprio, chamado Shakti, que é representado simbolicamente sob uma forma feminina.” (Introduction Générale à L’étude des Doctrines Hindoues, 1921).

Darshanas

Ao contrário do que se pode pensar ao se estudar as Doutrinas Hindus, não existe tal coisa como “filosofia hindu”, tal termo, e toda a variedade de terminologias de origem ocidental, são abstrações completas para as doutrinas do Brahmanismo. Em verdade, o termo Darshana (दर्शन), usualmente traduzido como ‘filosofia’ por alguns orientalistas alheios a Metafísica Pura, na verdade encontra uma melhor tradução na expressão ‘pontos de vista’, não existe nenhum tipo de oposição entre um Darshana e outro, apenas pontos de vista distintos em relação a realização da doutrina. Tal é como expressa Guénon: “Os darshanas são na realidade, portanto, “pontos de vista” dentro da doutrina, e não, como muitos orientalistas imaginam, sistemas filosóficos concorrentes ou conflituosos.” (Introduction Générale à L’étude des Doctrines Hindoues, 1921).

Os darshanas são seis, ordenados em três duplas, são elas Nyaya (न्याय) e Vaisheshika (वैशेषिक); Samkhya (साङ्ख्य) e Yoga (योग); Mimamsa (मीमांसा) e Vedanta (वेदान्त). Sintetizando cada um desses pontos de vista, Nyaya trata da Doutrina de um ponto de vista daquilo que podemos denominar no Ocidente de ‘lógica’ ou ‘metodologia’, enquanto Vaisheshika explora objetos específicos da realidade, bem ao modo da ciência quando usada submetida ao modo Tradicional, em uma perspectiva quase de catafatismo, para usar uma terminologia escolástica. Samkhya é a escola que explora o lado dual, isto é, Dvaita, da realidade manifesta, em termos de Purusha (पुरुष) e Prakriti (प्रकृति), funcionando também como uma preparação para a Yoga; esta por sua vez significa meramente ‘união’, nesse caso, com o ‘Princípio Animador’, Purusha. E finalmente, Mimamsa, que de modo suscinto e em termos simples é a preparação textual, de estudos, para a realização do Vedanta.

O Vedanta é o último dos darshanas em ordem e em classificação por uma razão vasta, etimologicamente significa “fim dos Vedas”, não é apenas caracterizado pelo fim por estar composto no último livro dos Vedas, os Upanishads, mas também por ser a finalidade desses textos, é pináculo supremo e absoluto da realização metafísica. Toda a Tradição autêntica busca como finalidade concreta a realização espiritual, esta só pode acontecer através da realização metafísica, em uma intensa torrente de completude alcançada tão e somente com a identificação do Ātma com Brahma, do Espírito com a Divindade. Tal realização fica sujeita as práticas da senda ascética de cada Tradição, e nas Doutrinas Hindus em particular, essa realização se denomina Moksha (मोक्ष), ou libertação, neste caso, do Samsara. O Vedanta é, em suma, a realização da realidade metafísica pura de Brahma. Como escreve Guénon: “Voltando ao Vedanta, ele deve ser considerado, na realidade, como uma doutrina puramente metafísica, abrindo possibilidades verdadeiramente ilimitadas de concepção.” (L’Homme et Son Devenir Selon le Vedanta, 1925).

Em síntese, podemos compreender as Doutrinas Hindus como extremamente vastas tanto em formas quanto em variedade. Porém, é imprescindível se ter em mente que a única coisa que pode ser levada em consideração como o ápice da sabedoria tradicional Védica é a realização do princípio metafísico supremo, isto é, Brahma, o qual no Ocidente denominamos Deus; esta é a mensagem final e objetivo supremo do Brahmanismo, que os seres possuidores de Ātma consigam se unir com a realidade de Brahma, em um processo identificado como Brahmaloka (ब्रह्मालोक) ou Brahmapura; a semente do Avatāra (अवतार) em cada coração. Como informa Guénon de modo conclusivo: “Esta é a ‘semente’ espiritual que na ordem macrocósmica é, como já dissemos antes, designado pela Tradição Hindu como Hiranyagarbha; e esta semente é o Avatāra primordial em relação ao mundo no centro do qual se encontra.” (Aperçus sur L’Initiation, 1946).

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