Formas Tradicionais: Cristianismo

Quando nos debruçamos frente aos estudos das diversas religiões, e particularmente, no estudo das Tradições autênticas e reveladas, nenhuma chama tanta atenção como o Cristianismo. As razões para tanto podem ser várias, muito embora seja pertinente relatar que a possível maior razão para tal é o fato de que, diferentemente de todas as demais Tradições, nas diversas visões cristãs: o Logos (λόγος) se fez carne, e habitou entre nós. No Ocidente, esse ponto é tão importante que serve como critério divisor de águas daquilo que se entende como mundo antigo e novo mundo; Ante Christum (a.C.) e Anno Domini (A.D.). O que, para além de uma forte impressão histórica da mensagem crística, reflete uma realidade metafísica imperiosa, que pôde mudar não apenas todo o espaço, mas também o tempo.

De modo breve, abordar a Tradição Cristã exige cuidado; pois é uma realidade histórica muito afetada por questões políticas e burocráticas, que culminaram desde sua origem em diversas heresias e alguns cismas. Portanto, o modo como a abordaremos aqui será em etapas. Primeiramente: reconhecendo os fatores históricos que culminaram nas diferentes visões cristãs, fundamentalmente a divisão entre Igreja Católica Romana e Igreja Católica Ortodoxa; posteriormente devemos analisar as diferenças de ambas visões cristãs e suas reconciliações; para finalmente conjeturar a realidade metafísica a qual ambas subscrevem, sendo esse o Credo Niceno-Constantinopolitano, e como as heresias, especialmente ao protestantismo, se encontram diametralmente opostos dogmática e metafisicamente deste cerne intrincado e ordenado dentro da Grande Tradição Cristã.

A única fonte escrita para o Cristianismo é a Bíblia (βιβλία), que, do grego, significa apenas ‘Livros’, sendo, portanto, um compêndio selecionado e ordenado de livros que contém diversas histórias. A divisão básica da Bíblia é entre Velho e Novo Testamento, divisão essa a qual todas as posteriores vertentes pós-cisma subscrevem, porém, com diferenças em quais livros específicos compõem ambos os cânones. A escrita original do Velho Testamento é em hebraico, pois este advém do Tanakh (תַּנַ״ךְ), que em suma é um compêndio de livros dos hebreus que apenas muda em ordem e composição nas demais bíblias cristãs; já no Novo Testamento temos a língua de composição original sendo o grego koiné, um dialeto do período dos apóstolos utilizado como língua escrita comum por todas as adjacências do Império Romano, de modo que essa ainda é a língua original utilizada no Velho e Novo Testamento dos ortodoxos, já os católicos instituíram a Vulgata, uma tradução feita por São Jerônimo para a língua latina. Em síntese, a única diferença que se relata de ambas as Bíblias, dos católicos e ortodoxos, está no Velho Testamento (ambos respectivamente com 73 e 79 livros). O Novo Testamento permanece com 27 livros para ambos.

O Grande Cisma

O Cristianismo era uma única grande e forte Igreja, com cinco patriarcados reconhecidos desde sua fundação, esses sendo chamados como a Pentarquia (Πενταρχία), eram essas as igrejas de Alexandria, Antióquia, Constantinopla, Jerusalém e Roma. Porém, em 1954 o Papa Leão IX e o Patriarca de Constantinopla Miguel I se excomungaram mutuamente, devido a diversas discordâncias políticas, e já no período, uma crescente visão teológica que até o dado momento histórico não foram reconciliados. A divisão é profunda, e conforme os anos foram passando, houve o agravamento dessas diferenças desde um grau fundamental até questões banais e triviais. A grande diferença que se possa relatar aqui são os meios para compreensão de Deus em ambas as Igrejas.

Na Igreja Romana, o maior expoente para a compreensão de Deus que se tem registro talvez seja Santo Tomás de Aquino, suas contribuições são de tal importância que, além de ter sido canonizado, foi nomeado Doctor Angelicus pela Tradição. A ele se atribui uma visão teológica chamada de Catafastismo, que em suma é a capacidade do homem de compreender e apreender à Deus através de suas criações, como as boas e belas coisas que encontramos no mundo e nos seres; essa visão, também chamada de teologia afirmativa, corresponde a visão da Igreja Romana de se buscar a ação no mundo, através das boas obras, como forma máxima de agradar a Deus, o Amor Caritas é a forma final de expressão do ente humano para demonstrar seus apreciação das coisas de Deus, zelando e cuidando delas, porém também se doando.

Já na Igreja Ortodoxa, a visão das boas obras segue igual. Porém, temos uma visão diferente sobre o relacionar-se e perceber-se com Deus. Essa visão na Igreja Ortodoxa deriva de Gregório Palamas, grande teólogo da mesma alçada e nível que Tomás de Aquino; sua visão consiste em diferenciar o que seria a Essência e as Energias de Deus. Essa visão culmina no Apofatismo, que nada mais é que a compreensão e percepção de Deus através da sua incognoscibilidade, sendo essa uma visão mais contemplativa e introspectiva dos modos de se alcanças Deus, ao contrário da visão puramente ativa para o mesmo fim, encontrada dentro da Igreja Romana. Essa distinção, em última análise, explica o modo de manifestação no mundo dessas duas Igrejas, onde as ordens monásticas são o suprassumo de agir, a exemplo do Hesicasmo (ἡσυχασμός) na Igreja Ortodoxa, onde diferentemente da Igreja Romana, os monges são mais sisudos e, em certa medida, obscuros, pois se encontram sempre em alto grau de isolamento e contemplação.

Existem cismas e divisões heréticas em ambas as Igrejas dentro da Tradição Cristã. Mas nenhuma heresia foi tão brutal quanto o protestantismo que surgiu no ceio da Igreja Romana. Vale mencionar apenas como uma nota, mas o monge Martinho Lutero foi um dos responsáveis pela degradação e destruição do Cristianismo no mundo. Não apenas o retorcendo por fora, mas o desfigurando desde dentro; através de suas teses e críticas a visão de que a instituição tradicional da Igreja, geracional e apostólica, não fazia mais sentido visto que devia ser observado apenas as cinco Solas: Sola Fide, Sola Scriptura, Sola Gratia, Solus Christus e Soli Deo Gloria. Essa visão não ia de encontro apenas com a instituição Igreja, mas negava a autoridade desta atribuída pelo próprio Cristo em Mateus 16, e contra toda a tradição de Santos, Beatos e homens de Deus que reconheciam e teciam suas ideais e ações baseadas nessa linhagem apostólica intrincada. Todavia, alguns sectos na Igreja Romana e grande parte da Igreja Ortodoxa se mantiveram ilesas dessas influências até os dias de hoje, nadando contra a nova instituída corrente.

A Deificação

Para todos os efeitos, a finalidade que podemos observar na Tradição Cristã é a Salvação da Alma. Em todos os aspectos quando se fala de Deus, no Cristianismo, estamos falando de um Deus que não está incognoscível em sua essência: Deus é Cristo, e Cristo é Deus e Filho de Deus; no sentido em que ele é um com duas naturezas, uma Divina e uma humana. Esse ‘mistério’ da natureza de Deus em si é o que une ambas as visões católica e ortodoxa. Porém, como já mencionado, os meios de apreensão desse mistério é o que se torna o motivo de disputa entra as duas vertentes da Igreja, não havendo uma liberdade de considerações como os Darshanas no Hinduísmo, onde as várias formas de compreensão da Divindade são pontos de vista. No Cristianismo, temos uma pretensa única forma de compreensão de Deus, a qual apenas as Igrejas Ortodoxas ainda subscrevem, está sendo a Teose (θέωσις).

Ambas as igrejas entendem esse processo como a Graça Santificadora, que pelos ortodoxos vem através das Energias (ἐνέργεια) de Deus, pois perscrutar sua Essência (οὐσία) é impossível. De todo modo, a Salvação se dá por esse processo de submissão completa das vontades, das paixões, e a abertura peremptória da Alma para as influências da Divindade de Deus, entendidos através da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo; nessa ordem, identificados como as hipóstases (ὑπόστασις) de Deus, o Deus Incriado, Eterno e Onipotente. Assim sendo, temos um dado que conjuga a Tradição Cristã com as demais Tradições, mesmo observando que os sacramentos são a realidade transitória entre aquilo que seria o Exoterismo e o Esoterismo no Cristianismo, ainda assim podemos notar o condicionamento da União entre o Homem e Deus, entre Criatura e Criador; retornando assim a natureza humana a um estado primevo de equilíbrio com a Eternidade, tirando o homem de sua constante de transitoriedade na existência. Esse é, talvez, um dos maiores presentes de Cristo para a humanidade.

Como nos é dito nas Escrituras: “Por intermédio destas ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça.” (2 Pedro 1:4).

Deixe um comentário