Como dois discípulos de Sócrates, Platão e Xenofonte representam duas vertentes da condição social na Grécia Antiga, mas não apenas; representam também duas condições humanas, duas castas distintas e com características únicas de uma essência humana há muito tempo esquecida. Trataremos aqui sobre o que duas biografias distintas de dois dos maiores alunos do Pai da Filosofia, como entendemos hoje, Sócrates, nos dizem sobre a percepção do Homem e do Ser na Antiguidade Clássica. Como, naturalmente, já temos um extenso texto sobre Platão, que já é um celebradíssimo filósofo em todos os meandros e quesitos, faz-se necessário comentarmos mais sobre Xenofonte, figura volta e meia mencionada nos cânones de História da Filosofia, porém pouco celebrada dada sua envergadura monumental tanto quanto seu coevo amigo, Platão.
Sobre Platão (cujo nome real era Arístocles) não há muito o que agregar, é considerado por muitos como o maior filósofo da história, potencialmente um dos mais estudados e o que mais impactou profundamente a história do pensamento. Sua vida foi uma vida digna de ser vivida, tendo morrido por volta dos 80 anos, nasceu em uma família abastada da aristocracia ateniense, dedicou seus anos aos estudos e a ginástica (como eram chamados os desportos), sendo considerado por muitos como um exímio lutador, dada sua robustez e força física. De todo modo, não foi para as artes belicosas que Platão foi atraído; passou parte de seus anos de estudo no Egito, onde é dito ter aprendido as Artes Herméticas, o que é reforçado por ser alguém de formação pitagórica conhecida. Platão fundou em Atenas sua Academia, onde teve diversos discípulos, nenhum destes se tornando tão conhecido quanto seu mestre, porém o conhecimento de Platão prosperou, impactando Plotino, e mais tardiamente Santo Agostinho, de modo que é inegável sua fricção no mundo posterior a sua existência.
Xenofonte, por sua vez, conhecido pelo seu epíteto Xenofonte de Atenas (para diferenciá-lo historicamente do tardio Xenofonte de Éfeso) tem uma gênese muito similar à de seu confrade. Também nascido em uma boa família da aristocracia ateniense, faleceu próximo dos 75 anos, sendo alguns anos mais velho que o próprio Platão. Xenofonte é poucas vezes rememorado por seus escritos, muito embora tenha deixado seus próprios ‘Diálogos Socráticos’, com recontos similares aos de Platão, narrou de seu próprio punho A Apologia de Sócrates, que foi a defesa definitiva de seu mestre frente aos acusadores atenienses de ser um “corrompedor da juventude”; tal como narrou os eventos de O Banquete (ou, O Simpósio), onde Sócrates e algumas ilustres figuras atenienses do período empreendem discursos sobre o Amor Eros (ἔρως). É deste último, de Xenofonte em particular, que se extraem a maior parte das objeções sobre a homossexualidade quase compulsória que é mal interpretada na versão platônica desse diálogo, dando-se melhor distinção às categorias de amante (ἐραστής) e amado (ἐρώμενος).
A distinção fundamental surge aqui, enquanto Platão é conceituado filósofo e reconhecido por esses méritos, os méritos filosóficos de Xenofonte ficam muito abaixo, pois seu mérito histórico está na sua carreira militar ilibada. Tendo participado das campanhas militares de Ciro, o Jovem, Xenofonte reconta nas suas Anabasis (Ἀνάβασις) sua expedição com os lendários Dez Mil, exércitos de diversos mercenários gregos contratados por Ciro para tomar o trono do Império Aquemênida de seu irmão Artaxerxes II, narrando os percursos e batalhas dessa empreitada, é considerada fonte primária para a historiografia deste evento. Dentre outros de seus escritos consta a Cyropaedia (Κύρου παιδεία), em que é relatada uma pseudo-biografia de Ciro, na qual são feitas várias asserções sobre o líder ideal, e a educação própria para os que serão reis e príncipes.
Dentre outras obras de Xenofonte, constam a biografia do Rei Espartano, Agesilau II; escritos sobre as leis da Lacedemônia (Esparta) e Atenas, além de sua Hellenica (Ἑλληνικά), um tratado sobre eventos históricos da Grécia Antiga, muito mais propriamente um escrito em tom de reportagem, pois Xenofonte escreve tomando por base a audiência de leitores daquele tempo, onde vários eventos já eram subentendidos, porém não necessariamente chegaram muitas dessas informações aos dias de hoje, o que causa uma certa falta de compreensão do leitor moderno, mesmo nos meios acadêmicos. Vale a pena ressaltar ainda os curtos ensaios sobre equitação, economia e caça que compõem o corpus das obras de Xenofonte. Em suma, é este um dos poucos e raros casos de autores da Antiguidade Clássica onde a totalidade de suas obras conhecidas foi legado a posteridade, porém, é evidente que mesmo vindo da mesma fonte de Platão e Aristóteles, Xenofonte não foi um best-seller da literatura universal ou da filosofia grega, e ao que se deve isso?
Platão é legado aos dias de hoje como grande filósofo, muito embora seus feitos sejam justamente mais concentrados nesse âmbito, ele também foi um ilustre político ateniense, e como homem de posses, empreendeu diversas viagens em sua época das quais não temos nenhum relato do conteúdo em si dessas jornadas. O que nos leva justamente à consideração sobre Xenofonte: ao longo da história sempre tivemos uma seletividade mesmo na composição dos cânones históricos, e no cânone da filosofia não foi diferente; Platão tem seus méritos, que são muitos e não são rebaixados em nenhum momento de sua trajetória, porém Xenofonte é tão digno quanto, pois ele foi um homem de elevadíssima erudição, e concomitante belicosidade, um homem de feitos tão reconhecíveis e louváveis quanto, este foi o fardo de Xenofonte, o fardo de ter pertencido a casta Guerreira, quando uma casta muito mais cara ao Sacerdócio se fazia presente como disruptiva.
Rememorando o sistema de castas Hindus, podemos ver essa orientação muito bem nessas duas figuras ilustres, onde os Brahmin (ब्राह्मण), seriam relativos a uma elite intelectual/espiritual, ao modo dos filósofos e sacerdotes (sendo estes cargos aparentemente distintos, mas muito mais próximos no período do que aparentam hoje); e os Kshatriya (क्षत्रिय) seriam identificados como parte das classes guerreiras/militares. Muito embora essa relação pareça espúria, é importante lembrar que a configuração de castas não se funde com a configuração de classes sociais, onde tais postos não dependem de poder econômico ou prestígio social, ao modo dos eupátridas (εὐπατρίδης) de Atenas, que eram os bem-nascidos, e próprios de famílias já reconhecidas. Essa imobilidade social é o que garantia uma distinção de estirpe entre os homens livres de Atenas em particular, e de modo geral em toda a Grécia Antiga.
Deste modo, concluímos este preâmbulo sobre duas eminentes figuras em seus determinados âmbitos, e como essa distinção, do Intelectual e do Guerreiro, não precisam ser funções tão díspares e opostas. O próprio Sócrates, em seus tempos áureos da juventude foi exaltado militarmente durante sua incursão como Hoplita (ὁπλῖται) durante a Guerra do Peloponeso. É de extrema importância para o intelectual que saiba aproveitar dos louros do guerreiro, e o guerreiro tenha sua completude na busca intelectual. De fato, nunca foram funções distintas, e como Platão observa em seu Magnum Opus, A República (Πολιτεία), o Rei‐filósofo, que seria o arquétipo de governante supremo, é tanto versado nas artes bélicas como nas artes da intelecção, não havendo objetivamente nenhum conflito em aperfeiçoar ambos os lados idealisticamente ao seu máximo. Tal é a dualidade de Platão e Xenofonte, em suma, homens autênticos e honestos.
Cito, pois, um extrato da República: “Para estas duas faces da alma, a corajosa e a filosófica, ao que parece, eu diria que a divindade concedeu aos homens duas artes, …não para a alma e o corpo, a não ser marginalmente, mas para aquelas faces, a fim de que se harmonizem uma com a outra, retesando-se ou afrouxando até onde lhes convier…” (Livro III, 412a).


