Filosofia Ocidental: Pré-Socráticos

A filosofia enquanto tradição divide-se em vários ramos, à exemplo da epistemologia, ética, ontologia, metafísica, dentre outras. Na filosofia ocidental, em particular, existe o fenômeno de diversas escolas e tradições filosóficas, essas derivadas dos esforços intelectuais de indivíduos; movimentos filosóficos que existiram nos garantem uma vasta linha de conhecimento advinda dessas tradições de pensamento. Tratarei aqui primeiramente dos pré-socráticos, como o nome sugere foram filósofos que viveram antes de Sócrates, sendo que alguns deles coexistiram com o filósofo. São pensadores muitas vezes mal interpretados na modernidade, sendo tidos como precursores arcaicos do pensamento científico, em verdade, são pensadores de uma epistemologia e ontologia próprias; pensadores que dialogam não apenas com a Tradição religiosa grega do período, mas também, expoentes dos primórdios do método intuitivo de compreensão da realidade, relegando ao método científico um mero papel coadjuvante em suas teorias e conjunturas da realidade.

Nenhuma obra completa dos pré-socráticos resistiu ao tempo, muito pela ação humana, como ocorreu na queima da Biblioteca de Alexandria, em um período que além da morte de diversos pensadores que guardavam o intento e chama do pensamento filosófico grego, como a filósofa Hipátia (Υπατία). Uma vasta parte dos livros dos antigos pensadores se perderam em cinzas, inclusive alguns de Platão e Aristóteles, raríssimo material que jamais poderemos recuperar. A biblioteca continha obras de grandes nomes da filosofia grega e de filósofos das proximidades do Império Grego do período, sendo estimado que mais de 100.000 livros foram perdidos nas chamas. No entanto, ao modo das obras de Platão e Aristóteles, os árabes acabaram ajudando a preservar a totalidade de seus trabalhos que chegaram até nós, assim como fragmentos de outros pensadores, um esforço que sem o qual estaríamos perdidos para sempre em termos de acervo desses pensadores.

Há três escolas de pensamento que podemos mencionar como sendo as originárias dos pré-socráticos, são elas a escola Jônica, com pensadores advindos da atual região homônima da Turquia; a escola Eleática, estes provenientes de onde hoje é o sul da Itália; e os Pluralistas, estes voltaram a discussões espistemológicas da escola Jônica. Algumas outras figuras como os atomistas são considerados membros de uma escola à parte, optamos pelas distribuições acima por situarem os pensadores geograficamente, sendo importante ressaltar que nos limitaremos a alguns pensadores, sem a pretensão de abarcar todo o movimento dos pré-socráticos, nos prestando apenas a apresentar o núcleo e espírito das ideias representadas por esse período.

A Arché (ἀρχή) como sendo aquilo que dá início, que origina e que está presente no movimento cíclico da natureza, sempre se renovando, uma espécie de ‘elemento onipotente’, uma Quintessência, que mantém a integridade do cosmos. Entretanto, essa ideia foi abandonada pela filosofia de Sócrates e adiante, não como uma negação principial desse conceito, mas como um assunto já resolvido e bem discutido, não passível de debates. Uma visão equivocada das archés está na interpretação literal desses elementos como ‘originadores da realidade’; é preciso se atentar para o fato de que essas entidades são um modo epistemológico, e quase metafísicos, permeados por simbolismos, a fim de dar um norte na compreensão da realidade primária a qual os gregos desse período viviam.

  • Tales de Mileto (626/623-548/545 a.C.)

É tido como o primeiro filósofo do ocidente e fundador da escola Jônica, teve muita influência na matemática e astronomia além da filosofia propriamente, Tales baseou-se nas observações da natureza e dos astros, tendo como sua Arché a Água. Como nos é dito nessa passagem da Metafísica de Aristóteles: “Tales diz que o princípio de todas as coisas é a água, sendo talvez levado a formar essa opinião por ter observado que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio calor é gerado e alimentado pela umidade. Ora, aquilo de que se originam todas as coisas é o princípio delas. Daí lhe veio essa opinião, e também a de que as sementes de todas as coisas são naturalmente úmidas e de ter origem na água a natureza das coisas úmidas…”.

Tales foi muitas vezes criticado, mesmo em sua época, por se comportar de maneira “estranha” na visão de alguns, em relato de Plutarco, Tales tropeçou e caiu enquanto caminhava (em algumas fontes romantizam dizendo que caiu em um buraco), e foi repreendido por alguém sendo chamado de lunático, e por mais que tal categoria tenha um fundamento anedótico, Tales estava apenas analisando o tempo para saber se haveria uma chuva ou uma seca, da qual aproveitaria para poder cultivar oliveiras e produzir azeite, sendo desafiado por alguns no período de que se fosse tão inteligente com suas observações e hipóteses, por que não era rico? Desse modo, Tales logo humilhou seus opositores tornando-se abastado graças a essa previsão do tempo em particular, onde arrendando prensas de azeitonas, colheu uma das melhores safras que há anos os produtores estavam aguardando, vindo já de muitos anos de estiagem. Está anedota demonstra como Tales se interessava pela observação, sendo assim o primeiro filósofo a pautar sua vida e seu pensamento em um modo empírico, tendo sido propulsor de uma espécie de proto-empirismo. Dentre outros muitos louros, ele foi mestre de Anaximandro e Anaxímenes.

  • Anaximandro (610-546 a.C.)

Foi seguidor da escola Jônica. Abastado cidadão da elite de Mileto, tendo se destacado no pensamento geográfico e matemático, ele dizia que a terra era cilíndrica, tendo sido para a época uma grande inovação no pensamento material das coisas, tendo também ideias que se assemelham ao entendimento da física moderna, sendo precursor no pensamento científico da época, aprimorando os métodos. Sua Arché é o Ápeiron (ἄπειρον), um elemento que todas as coisas se originam, seria uma substância infinita, que cria tudo na natureza, uma ideia muito similar ao conceito védico de Purusha (पुरुष); uma predileção muito interessante da época, dada a configuração politeísta da sociedade grega do período, pensar em termos infinitos e imanente é uma prefiguração clara de um Monoteísmo Primordial, o qual estima-se que Zeus (Ζεύς) seria uma reminiscência. Acredita-se que escreveu um livro intitulado ‘Sobre a Natureza’, mas a obra se perdeu, é possível que tenha sido no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

  • Anaxímenes (586/585-526/525 a.C.)

Foi outro dos mais importantes discípulos de Tales de Mileto, tendo se dedicado à meteorologia e o primeiro a afirmar que a luz da lua provém do sol, foi também o primeiro a medir as divisões do dia e desenhar um relógio solar. Sua Arché era o Ar, ele embasava tal afirmação na observação da condensação das coisas na natureza, como a névoa que depois se tornaria água, ele supunha que essa condensação poderia vir a se tornar terra ou rocha, mas isso não foi observado. Ele também explicava alguns fenômenos naturais com embasamento logico, como os terremotos, dizendo que seria por falta de umidade, o que faz com que a terra resseque, se quebre e por consequência trema, o relâmpago ocorre quando as nuvens são separadas violentamente pelo vento o que causa uma iluminação como o fogo. Enfim, Anaxímenes seria o mais “descrente” dos pré-socráticos, baseando a maior parte de suas conclusões em observações naturais, descartando as intervenções do Divino (θεός), e até mesmo questionando sua existência.

  • Xenófanes (570-478 a.C.)

Xenófanes de Cólofon foi um caso interessante nesse ínterim de pensadores gregos até Sócrates. Ele foi o primeiro a questionar a potencialidade de uma Divindade única e imutável, indivisível e imanente; em contraposição aos deuses dos mitos de Homero e Hesíodo. De qualquer modo, Xenófanes não descartava os deuses, e subscrevia-se para a religiosidade do período, sendo ele mesmo um poeta, questionava as omni-potencialidades dos deuses, vendo que as representações antropomórficas eram uma forma dos homens se aproximarem da Divindade, independentemente de estarem certos sobre suas representações ou não. Foi também um observador da natureza, buscando as explicações naturais para os mais diversos fenômenos, escrevendo em forma de poesia sobre esses temas filosóficos. Diógenes Laércio relata que ele tenha sido o mestre de Parmênides de Eleia, o que é plausível, se compararmos as similaridades entre o pensamento de ambos.

  • Demócrito (460-370 a.C.)

Por fim, Demócrito é um dos pré-socráticos que coexistiu com Sócrates, foi discípulo de Leucipo de Mileto, e juntos fundamentaram a teoria do que viria a ser o atomismo, palavra oriunda de Atomon (ἄτομον), que significa ‘indivisível’. Também influenciou muito a filosofia de Epicuro de Samos, um dos maiores filósofos do helenismo tardio. Sua obra sobreviveu apenas por relatos e muitas vezes não confiáveis, já que quem mais os fez foi Aristóteles, reconhecido na historicidade como seu maior crítico. Porém, Demócrito de fato foi um escritor muito prolífico, tendo atuado nos campos da ética, matemática, música, dentre outros. Sua Arché é o átomo (ἄτομος), uma partícula microscópica, que origina todas as coisas, sendo essa ideia usada até tempos modernos, onde os físicos e químicos da atualidade identificaram com a criação de aparatos tecnológicos, como o microscópio, que a realidade material pode ser reduzida até partículas insignificantes em tamanho a qual foram chamadas de átomos, em homenagem clara aos atomistas supracitados. É, pois, de se admirar, que Demócrito já em sua época, imaginava um objeto microscópico compondo matéria física que séculos após sua morte viria a ser constatado como factível; uma prova de que mesmo hoje onde nos regozijamos de termos atingido o auge da técnica (τέχνη), não podemos descartar o conhecimento dos antigos, e propriamente, deveríamos utilizá-lo como bússola para a modernidade.

Acredito que estes sejam os mais impressivos dos filósofos pré-socráticos que me caiba comentar aqui, estou deixando Heráclito, Parmênides e outros para oportunidades futuras em que os caracterizarei de um modo mais complexo e composto.

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