Filosofia Ocidental: Platão

Arístocles (Ἀριστοκλῆς; 428/423-348/347 a.C.), mais conhecido por seu apelido Platão (Πλάτων), foi um filósofo da Grécia Antiga que nasceu e viveu em Atenas, sendo considerado por muitos o maior expoente do pensamento Ocidental, sendo creditado, junto à Sócrates, com os pensamentos mais elementares da história da filosofia, tal como o mundo das ideias, que consiste em uma elaborada contribuição para os campos da metafísica e epistemologia, e que influenciou vários filósofos posteriores. Dentre as dicotomias básicas da filosofia, os pensadores da posteridade sempre elencaram Platão como uma figura de renome inalcançável, sendo de fato atribuído a ele o posto de mais importante filósofo da história, por ter dado das bases do pensamento universal; rivalizando com sua pompa há apenas seu discípulo imediato, Aristóteles.

No que concerne ao entendimento de mundo dos filósofos, é importante frisar que as concepções, definições e atribuições das ideias no geral são feitas pelos acadêmicos que estudaram durante muito tempo as concepções particulares das filosofias de cada pensador. Entretanto, tais longos estudos foram feitos, em grande parte, com uma mentalidade muito arraigada em noções e semânticas comuns aos modernos de modo geral, sendo assim, tais semânticas e noções podem ter conotações muito diferentes e por vezes não existirem na antiga concepção grega e europeia em particular. De qualquer modo, vale ressaltar que o estudo do Grego Clássico é imprescindível para uma leitura e apreensão precisas dos textos de Platão e dos pensadores desse período como um todo.

Como nota biográfica sobre a vida de Platão, vale mencionar que para além de reconhecido discípulo de Sócrates, ao lado de outros ilustres pensadores, Platão nasceu em uma família abastada de eupátridas (εὐπατρίδης) atenienses, o que lhe garantia a vida toda um acesso digno da aristocracia do período. Graças a tal situação de nascimento, por conta de sua riqueza material, Platão conseguiu ainda na antiguidade empreender diversas viagens, dentre as quais a mais importante talvez tenha sido sua ida ao Egito, onde entrou em contato com a Tradição Hermética; sendo também conhecidas suas relações com os ritos e a religiosidade pagã do período e com o pitagorismo.

Tais relações ilustram bem o que os acadêmicos posteriormente chamaram da divisão exotérica e esotérica em suas obras, dado o peso que esses conhecimentos tiveram no seu pensamento. O filósofo lituano Algis Uždavinys escreve já na contemporaneidade sobre essa relação: “O objetivo supremo da filosofia pitagórica e platônica era a assimilação à Deus através do cultivo da virtude e da verdade. Significava um retorno aos primeiros princípios alcançados por meio da educação filosófica (παιδεία) e da recordação (ἀνάμνησις), da investigação científica, da contemplação e da liturgia (ou ascensão teúrgica), baseada em símbolos inefáveis e ritos sacramentais. Por meio dessa prática filosófica, o estudante iniciado era transformado em um homem santo e divino (θεῖος ἀνήρ).”

  • Sócrates (470-399 a.C.)

Tratando de seu mestre, Sócrates foi um filósofo de Atenas que serviu como personagem principal em muitas narrativas e diálogos platônicos. Sócrates não deixou nada escrito, apenas diálogos que foram transcritos por Platão, e por isso é difícil creditar qual por cada ideia, ou até confirmar se Sócrates de fato existiu ou foi apenas um personagem para servir de canal as ideias de Platão. Porém, por convenção, e por haver mais indícios a favor do que contra, Sócrates é visto como um personagem histórico real, sendo sua própria vida um relato à parte sobre bravura, temperança e coragem, virtudes as quais estimulava a totalidade de seus discípulos a seguirem.

Uma das ideias atribuídas à Sócrates é o Método Socrático, que consiste basicamente em três etapas para se chegar ao conhecimento verdadeiro:

  1. Fazer o interlocutor se questionar de suas ideias, colocando-o em reflexão, fazendo com que ele se embaralhe e se perca no raciocínio até um ponto onde ele nem saiba mais do que estava falando originalmente.
  2. Fazê-lo cair em contradição e perceber como seu conhecimento é finito e limitado.
  3. Através da discussão acerca de tal assunto obter algo que se assemelhe a verdade, no caso, Maiêutica (μαιευτικη), parir ideias.

Sócrates também era um crítico ferrenho dos sofistas, atacava-os em seus ofícios, e criticava a forma como viviam ensinando por dinheiro, o filósofo foi inclusive retratado na peça As Nuvens (Νεφέλαι) de Aristófanes como sendo ateu, vagabundo e sofista, considerações errôneas do dramaturgo que culminaram em sua culpabilização equivocada.

O filósofo foi condenado à morte em Atenas com as acusações de corromper a juventude, ateísmo e adoração prestada à ‘deuses malignos que gostam da destruição’. Sócrates respondeu para seus acusadores, em um diálogo conhecido como A Apologia De Sócrates (Ἀπολογία Σωκράτους), ou tão somente como A Apologia, afirmando que não corrompia ninguém, apenas questionava e interrogava as pessoas para obter ou se aproximar da verdade; negou as acusações de ateísmo e adoração aos deuses estrangeiros, mesmo assim foi condenado, e dentre várias penas que o privariam de continuar no ofício de filósofo, escolheu a morte, optando por beber cicuta.

Após sua morte, Platão continuou lecionando em sua escola, e passando o pensamento de Sócrates adiante, o filósofo é até hoje visto como um dos maiores da história pelo seu pensamento inovador, apesar de ter rompido com as diversas tradições de seu tempo, em verdade, Sócrates nunca foi um intransigente ou revolucionário, apenas um questionador.

  • Pensamentos de Platão

Passaremos, pois, a uma exposição rápida dentre os principais pensamentos atribuídos (atribuídos é o termo, pois em seus livros existem vários personagens, alguns inventados e outros reais, o que impede uma identificação exata de qual ideia é de quem) à Platão. Podemos destacar a Teoria das Ideias, sua concepção de Ética e Justiça, a Alegoria da Caverna e o Mito de Er, como os principais e talvez mais impactantes pensamentos expostos em sua obra.

Teoria das Ideias: Ou, como também ficou conhecida, Teoria das Formas; afirma que ideias abstratas, não-materiais e imutáveis é que possuem o tipo mais alto e mais fundamental de verdade na realidade, e não o mundo das sensações, o mundo material. O pensamento capta formas inteligíveis que são as essências puras das coisas. Para Platão, há uma ligação metafísica entre a visão do pensamento e o objeto.

Ética e Justiça: Esta ideia é discutida na República, onde Sócrates (personagem da narrativa) descreve seu modelo ideal de cidade, tendo cada um em seu ofício de um modo praticamente divinamente ordenado (relembrando a ideia das castas), como se cada qual nascesse determinado por um dom ou condição a tal serviço, como os fortes serem guerreiros, os pensadores filósofos, os que bem escutam serem músicos e afins. É importante ressaltar também o papel da virtude nessa sociedade ideal, pois em uma sociedade onde seus membros tivessem os vícios ante as virtudes, estariam todos fadados a corrupção, e necessariamente, ao fracasso.

Platão também da espaço na construção da cidade para descrever como ela se organizaria, para ele, o líder da cidade deveria ser o Rei‐filósofo (φιλόσοφος βασιλεύς), pois este é extremamente sábio, e digno de tal cargo; o filósofo define a justiça como a vontade de um cidadão de exercer sua profissão sem se meter em outros assuntos, seguindo de um modo austero aquilo que ele tem como predeterminado em seu âmago. Para a justiça ser validada ela tem que ser tida como virtude. Nessa construção, Platão também explora a noção de castas e ofícios, algo que diz respeito a cosmovisão tradicional de mundo, que permeia o zeitgeist do filósofo.

Alegoria da Caverna: A alegoria da caverna é a mais conhecida narrativa platônica, ela pode ser descrita melhor com uma imagem, mas vale destacar o que é cada coisa em sua composição.

  1. As sombras são o reflexo do que é real, mas que estão bastando na vida dos ignorantes.
  2. As correntes ou a pedra são os sentidos, que nos mantêm presos a realidade sensível.
  3. O homem que se desvencilha das amarras e sai da caverna é o filósofo, que depois volta para tentar libertar seus companheiros.
  4. O sol é a Verdade, a ideia pura e simples.
The Allegory of the Cave

Mito de Er: O mito narra como as pessoas vêm para a terra. Uma descrição ocidental perfeita do processo de palingenesia (παλιγγενεσία), de como elas saem do ‘mundo das ideias’ e ‘caem no mundo das formas’. Antes de chegarem até aqui elas passam por um rio, onde todos bebem de suas águas, os que bebem mais esquecem mais e serão aqui na terra os tolos, e os que bebem pouco, não esquecem muito, e estes serão os sábios. A narrativa é bem mais detalhada no Livro X da obra fundamental de Platão: A República (Πολιτεία).

Sumarizando o que foi aqui exposto: Platão foi um grande expoente da filosofia ocidental, suas ideias deram base à fundamentação de todas as correntes de pensamento posteriores, e seu pensamento em particular foi seguido pelos neoplatônicos após sua morte ainda na Grécia sub judice do Império Romano. Seus escritos, assim como os de Aristóteles, nos dão uma noção não só da filosofia Grega, mas da cultura e da religião daquela época, por vezes que seus escritos tenham sido interpretados dentro de noções culturais posteriores, tendo passado pelas mãos dos escolásticos e demais correntes que se nutriram do pensamento platônico, observamos aí a importância áurea desse que é, sob minhas palavras (e de outros grandes pensadores), o maior de todos os filósofos na história da humanidade.

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