Em toda a história da Filosofia Ocidental, uma das coisas mais relevantes, se não a mais relevante, é a divisão das filosofias de Parmênides e Heráclito, cada um com as ideias de imobilidade e mobilidade do ser respectivamente. Ambos eram gregos, tendo vivido na mesma época, entretanto nascidos em cidades diferentes, e mesmo em sua época, sendo reconhecidos por seus conflitos públicos a propósito de suas visões ontológicas distintas, e em certa medida, concorrentes.
Para explicar o alcance desta divisão, é necessário compreender em que cenário estas ideias ganharam força, e em quais movimentos e momentos históricos cada uma se destacou mais ou entraram em conflito. A discussão nasceu com a ideia da imobilidade; para Parmênides as coisas são estáticas, mudanças não existem já que a existência é atemporal, uniforme, necessária e imutável, e a ideia que contrapõe esta afirmação é a do ser móvel de Heráclito, onde tudo é fluido. Tratarei de cada um individualmente, sendo importante ressaltar que essas são visões que falam de essência e substância propriamente, sendo questões concernentes a ontologia, mas não apenas, também a epistemologia e até mesmo a metafísica.
- Parmênides (540-450 a.C.)
Parmênides de Eleia foi um pensador da Grécia Antiga, como indica seu epiteto, foi nascido em Eleia, cidade ao Sul da Magna Grécia. Suas datas são confusas, tendo primariamente o tardio Diógenes Laércio e Platão proporcionado tal confusão. Ele foi o fundador da Escola Eleática, junto de Zenão de Eleia, seu principal discípulo, e Melisso de Samos; crê-se que também escreveu as leis da cidade de Eleia e foi a maior influência da filosofia epistemológica de Platão. É também creditado com a autoria de um poema filosófico intitulado Sobre a Natureza (Περὶ Φύσεως), onde ele deixa claro as suas interpretações de imobilidade do ser, entretanto, foram legados até nós apenas os fragmentos desse poema, porém já conseguem dar um bom indicativo de seu pensamento em geral, o qual replicamos hoje em dia.
Suas ideias, sendo a base espitemológica platônica, tendo este apenas incrementado seu pensamento (coisa bem similar ao que os cristãos fizeram com o pensamento de Platão), é nos legado dos fundamentos de Parmênides o seguinte:
- A imobilidade do ser;
- O mundo sensível não é confiável, é ilusório;
- O ser é eterno e imutável;
Então, podemos sintetizar o pensamento de Parmênides da seguinte forma: Já que toda a realidade é imutável, estática, e sua essência está presente no Ser-Absoluto, que é a definição metafisica daquilo que seria a onipotência, e que qualquer descontinuidade em sua presença seria como seu oposto, logo, o não-ser, Parmênides define que as coisas não podem ‘não-ser’, pelo problema de continuidade e a abstração causada por esse pensamento, basicamente retirando a noção de sentido nos substratos dos entes.
Para os opositores de Parmênides, esse pensamento pode até se sustentar, mas na prática não é viável em termos puramente materiais, à exemplo do Amor Platônico, onde segundo a definição do filósofo, o amor não é algo carnal, mas metafísico, onde apenas pode existir através da imaginação, da idealização da coisa, sem nunca consuma-la. Todavia, é um pensamento criterioso e bem elaborado, estabelecendo bases metafísicas muito amplas e clássicas que viriam a permear na filosofia até os dias de hoje.
Os movimentos em que Parmênides teve grade influência podem ser destacado com facilidade como movimentos com muitos pensadores cristãos, em raros casos isso não se aplica, como em Kierkegaard (mesmo sendo protestante), que fica sempre em cima do muro mas puxando mais para o lado de Heráclito; os movimentos com base Parmenídica são: Escolástica, Idealismo (tal como o Idealismo alemão), Platonismo, Neoplatonismo, Racionalismo e todos os movimentos que tendem a ver uma objetividade intrínseca nos princípios elementares e fundamentais.
- Heráclito (535-475 a.C.)
Heráclito é o outro filósofo em particular que se estabelece na discussão do Ser junto a Parmênides. Nascido em Éfeso, é tratado na história como o “Pai da Dialética” e uma pessoa ‘obscura’, sendo ele o idealizador da mobilidade, o ser não estático, não imóvel; logo, o Ser como não ser. Heráclito não era muito popular como pessoa pública, apesar de não nutrir amores pelos outros, nas palavras de Diógenes Laércio: “Heráclito, filho de Blóson, ou, segundo outra tradição, de Heronte, era natural de Éfeso. Tinha aproximadamente quarenta anos por ocasião da 69ª Olimpíada (504-501 a.C.). Era homem de sentimentos elevados, orgulhoso e cheio de desprezo pelos outros”. Este relato em particular da uma noção marcante de como o filósofo tinha um sentimento misantropo em relação à sociedade de sua época, seu objetivo era de viver livre no campo, ele conseguiu tal objetivo, só que não sem ser muito criticado pelos seus efésios contemporâneos, sendo que todo esse sentimento misantropo e natural vai servir para a formulação de suas ideias, as quais estamos elaborando sobre.
Um pensamento primário que se pode surgir em relação a figura de Heráclito é que ele é uma má pessoa, entretanto, a narrativa de Diógenes Laércio pode, novamente, esclarecer isso: “Retirado no templo de Ártemis, divertia-se em jogar com as crianças e, acercando-se dele os efésios, perguntou-lhes: De que vos admirais, perversos? Que é melhor: fazer isso ou administrar a República convosco?”. Tal passagem também demonstra a grande aversão à democracia e a vida política em geral tida pelo filósofo.
Seu pensamento pode ser visto em três campos, que não vou me ater a cada um individualmente, mas unicamente, pois seu pensamento faz mais sentido se suas ideias forem postas juntas em uníssono:
- A mobilidade do ser;
- O mundo sensível é tudo o que podemos perceber;
- O ser é finito e mutável;
O fogo é a Arché (ἀρχή) de Heráclito, logo, tudo se origina do fogo, inclusive foi assim com o cosmos, e sendo o fogo altamente destrutivo, nada é igual em sua composição, cada chama que queima é diferente. Isso é a interpretação filosófica comum, mas assim como todas as outras Archés, o conceito que é dado por cada uma, nesse caso o do fogo, é extremamente metafórico. Não é a Água propriamente, para Tales, que criou tudo inclusive o universo, pois isso soa muito verossímil de uma forma, mas nada prático de outra.
A presente mobilidade do ser é peça chave para compreendermos a dissolução das definições de absoluto dentro do pensamento metafísico e religoso das diversas sociedades. O pensamento dos antigos pode ser resumido em um modo circular, onde não há início nem fim, onde as coisas se repetem em uma ordem natural como uma forma de beneficio. Alguns movimentos que seguiram o pensamento de Heráclito: Ceticismo, Epicurismo, Niilismo, Existencialismo, Empirismo, tal como todos os pensamentos voltados para o relativismo e a subjetividade dos seres e suas relações efêmeras.
É bom frisar que essas linhas de pensamento, mesmo que em primeiro plano pareçam muito simplistas, foram expandidas e modificadas durante toda a história, cada qual para cada ideia por cada pensador. Mas as origens permanecem inalteradas, e o aproveitamento de Platão da filosofia Parmenídica lembra muito o aproveitamento de Santo Agostinho sobre Platão; foi esse mimetismo que acabou gerando essa bipolaridade na filosofia, de modo que os pensadores posteriores aos clássicos gregos, sempre tiveram que retornar a esses mesmos clássicos para poderem buscar arcabouço de sabedoria para expandir suas ideias.
Ainda explorarei mais esses temas futuramente, entretanto para partir a uma filosofia mais complexa, a base tem que estar firme, portanto me aterei em dois ou três momentos relevantes da filosofia antiga, antes de discutir o pensamento em momentos mais presentes ou até na atualidade.



“(…) os movimentos com base Parmenídica são: Idealismo (tal como o Idealismo alemão) … (…)”
Tem certeza sobre o Idealismo a alemão? Porque Hegel está mais para Heráclito.
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No texto eu deixo tudo de modo muito geral, porém é pertinente sua questão.
Quando falo do Idealismo Alemão me refiro mais aos pós-kantianos como Fichte e Schelling, esses que colaboraram no Idealismo Transcendental herdado de Kant. Hegel por outro lado se tornou um dialético, o que o aproxima sim da noção ontológica de Heráclito, porém a base de comparação é epistemológica, e mesmo na filosofia de Hegel, esse quesito continua mais próximo do Idealismo Transcendental do que do Materialismo Histórico. O próprio conceito de Zeitgeist hegeliano é idealista, por exemplo, já que foi muito influenciado pela Tradição Hermética, além de Kant.
A questão é que a filosofia como um todo se apresenta como um corpo teórico-especulativo de bases fundamentais herdadas da Tradição pertinente as religiões, então toda essa análise filosófica, apesar de importante, é bastante simplória. Então ainda em termos filosóficos, você vai observar uma verdadeira “salada” em todos os pensadores modernos; como exemplo o Übermensch de Nietzsche e o Eterno Retorno do mesmo, a primeira tese é totalmente parmenídica, já a segunda é influenciada por Heráclito. As distinções de escolas influenciadas por tal e tal pensamento presentes no texto são por uma questão meramente didática.
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