Durante muitos anos, desde o século da formulação da teoria de Charles Darwin sobre a Seleção Natural, muitos intelectuais têm suscitado, discutido e avançado a teoria darwiniana para diversos campos de pesquisa, tanto em universidades quanto através de iniciativas privadas, o que ajuda a dar novos horizontes em suas ideias. Muito embora, as teses darwinistas sejam, como o nome indica: ‘teorias’, há desde a primeira aparição da obra magna de Darwin, A Origem das Espécies (On the Origin of Species by Means of Natural Selection), muito alvoroço na comunidade científica para estabelecer essas ideias como bases fundamentais do pensamento científico moderno, quase como um ‘dogma científico’. Entretanto, isso não anula o fato de que sua obra serviu para a ciência posterior a seu tempo, e de qualquer forma, algumas das ideias surgidas nesse âmago foram pensamentos hora positivos e eventualmente negativos, mas com impacto geracional inegáveis.

Um desses pensamentos surgidos, mais ou menos, ainda no período de vida do próprio Darwin foi a ideia da Eugenia, sendo que, incrivelmente, foi postulada primeiramente por um primo seu, Francis Galton, em sua obra O Gênio Hereditário (Hereditary Genius); homem de muita intelecção, Galton postulou a ideia da Eugenia basicamente como, parafraseando-o: “um conjunto de fatores sociais e hereditários que ajudariam a melhorar ou piorar as futuras gerações dos indivíduos de acordo com o controle exercido sobre estes”, ou seja, alguém que vive em libertinagem, uso de drogas variadas constantes (incluindo remédios) e sedentarismo, provavelmente vai gerar pior prole que alguém que evita esse mesmo estilo de vida, cuida da saúde e faz atividades físicas regulares. Galton dava força a um pensamento, contudo, já próximo da genética, pois segundo ele: “o indivíduo é o significado aritmético de três quantidades diferentes, seu pai e mãe, e toda a espécie dos ancestrais paternos e maternos, indo para trás de uma série dupla dos primórdios de toda vida”.
Contudo, a hereditariedade como citada acima na definição da eugenia só foi incrementada na teoria de Galton futuramente, com as descobertas do frade austríaco Gregor Mendel, e a cunhagem do termo ‘genética’ pelo biólogo inglês William Bateson, até o período de Galton pensava-se com uma mentalidade muito empírica, tendo em vista a influência apenas do ambiente na formação psicofísica do indivíduo. Todavia, a ideia de Galton se mostrou verídica na maioria dos aspectos, uma seleção de cruzamento entre quaisquer indivíduos ou seres (animais ou vegetais), fazendo com que os melhores se somem aos melhores, e dentro das respectivas similaridades dos atributos máximos uns dos outros, isto é, dentro de cada espécie e cada raça, há uma grande tendência quase concreta da prole vir saudável e com um potencial de desenvolvimento altíssimo, caso os geradores dessa prole tiverem atributos correspondentes um com o outro de alto vigor, saúde e altas habilidades.
Entretanto, essa ideia não é nova, apesar da seleção natural de Darwin, ter sido uma teoria consideravelmente recente, a eugenia já existia dentro das civilizações pré-cristãs na Europa, entretanto esta eugenia antiga levava em consideração alguns tipos de características que não eram propriamente do indivíduo, como exemplo, a condição de escravo, que se pensava ser algo praticamente ‘hereditário’, tendo pouca ou nenhuma mobilidade social na Grécia e Roma antigas, porém a eugenia também se mostrou presente em outros povos ancestrais desse mesmo período, como os Germânicos.
Fato é, que para se coletar tais informações é uma tarefa extremamente árdua, no caso da Grécia requer-se uma sincronia de leituras e interpretações constantes com os vários autores do período, dos filósofos aos poetas, e as fontes têm que ser suficientemente ricas de informações, o que felizmente temos, e já no caso dos Germânicos, não nos é muito presente. Mas, pois, qual é essa eugenia dos antigos? Dependendo do povo em questão, existiram várias formas de garantir a eugenia tanto teórica quanto prática; no caso teórico os registros de Platão e Aristóteles deixaram nas entrelinhas seus pensamentos pró-eugenia, um exemplo teórico muito evidente disso está na construção regulada e ‘perfeita’ da República (Πολιτεία) do próprio Platão, e no campo prático as leis de Licurgo (Λυκοῦργος), de Esparta; que foi o regimento desta cidade-estado grega durante vários reinados, e garantia justamente uma maior eficiência geral de sua população.

Na antiguidade, tanto na Grécia quanto em Roma, uma das formas mais comuns e a que mais se tem registros sobre é a do infanticídio, é conhecidíssimo, por exemplo, as histórias do fosso de Esparta, onde as crianças com deformidades ou limitações eram terminantemente descartadas, sem mais nem menos, fazendo assim uma limpeza social imediata, pois a sociedade nem chegava a ver que deformações podiam crescer e se tornar parte dos indivíduos viventes, por conta dessa limpeza, é vastamente relatado, que os espartanos eram inestimáveis na atuação militar, no caso dos homens, ou as mulheres como grandes enfermeiras e cuidadoras, pois eles tinham uma maior condição em todas as atividades que se dedicavam, justamente por conta dessa eugenia radical.
Mas mesmo na antiguidade grega, existe um contraste entre os postulados eugênicos dos espartanos e dos atenienses, provavelmente por conta de os espartanos serem criados e estarem vivendo em função da guerra, as tomadas de decisão mais práticas chamavam mais sua atenção, enquanto os atenienses, mais teóricos e burocráticos, buscavam soluções de longo prazo, fato é que o incentivo da prática da ginástica era feita por Sócrates e Platão, para que os indivíduos não apenas prosperassem em suas vidas pessoais, mas que se tornassem boas reprodutoras, e evitassem a degeneração, sendo este mais um traço da eugenia como cativa dos antigos europeus.
Também era sustentada a ideia de que quando há degeneração física, não há apenas degeneração nesse ponto, mas também na alma (que deve ser interpretada junto com o psicológico e os valores morais), tudo por conta do não cuidado com a saúde e o bem-estar. Segundo Platão, essa degeneração deve ser ‘parada’, e a sociedade tem o dever de colocá-la nos trilhos e eixos morais socialmente aceitos o quanto antes, a solução então seria a pena capital, o que em verdade não era muito frequente entre os gregos, porém quando necessária nunca era remediada, à exemplo de Sócrates, que injustamente foi condenado à morte por envenenamento.
Deixo aqui, pois, um trecho do livro Eugenia na Antiguidade (Ancient Eugenics), de Allen G. Roper; que vi descrever muito bem essa relação geral da eugenia na antiguidade clássica: “Mesmo assim, apesar dos gregos terem abandonado a questão da hereditariedade no desespero, e, incapazes de prevenir as vítimas de nascerem, matando no nascimento se possível, eles perceberam muitos dos problemas que continuariam confrontando os eugenistas 2000 anos depois, e eles perceberam em partes os remédios para isto. É errado dizer que a antiguidade nunca levantou a questão se uma doença ou pré-disposição hereditária devia ser um barramento para o casamento. Os Espartanos, Platão, Aristóteles, todos perceberam o problema, Platão retornando ao atavismo para obter um remédio, Aristóteles concedendo os métodos humanos da Eugenia Moderna. Os Espartanos e Platão não eram cegos a necessidade, atualmente tão urgente, de medidas restritas para lidar com a insanidade, e Platão ainda sonhou com o segregacionismo. Há aí o reconhecimento de que a Eugenia é a esfera não apenas dos médicos, mas também dos filósofos; isto é um fator para o problema que a Eugenia seletiva deve se ater tanto em questões psicológicas como em questões físicas”.
E quanto aos germânicos, vale o comentário de que destes apenas nos foram legados pelos escritos de Tácito sobre a Germânia, obra de referência global sobre os antigos hábitos dos povos germânicos primitivos, viventes no período do Império Romano ainda em sua juventude. Mas em suma, os germânicos mantinham a si mesmos com as mesmas preservações estritamente raciais dos gregos e romanos, os casamentos eram ordenados dentro das tribos através de características similares de força e altura, os relatos de infanticídio neste período são obscuros, mas não descartados; em verdade, este foi o povo que melhor conseguiu se preservar dentre todos da antiguidade clássica, pois na sequência histórica, Grécia e Roma tiveram suas derrocadas quando começaram a se tornar estados multiculturais, o que foi uma brusca queda, propiciando sua degeneração, e consequente destruição.
