O primeiro registro que temos sobre o continente perdido de Atlântida advém de um conhecido diálogo do mestre Platão (Πλάτων), o Crítias (Κριτίας), ou A Atlântida (Ἀτλαντικός); sendo este um dos textos tardios do filósofo, conhecido por ser um trabalho que expressa visões do próprio Platão, dando aos personagens presentes na narrativa papel de coadjuvantes frente a exposição sistemática platônica. O diálogo se dá após a exposição do Timeu (Τίμαιος); este, por sua vez, é um dos textos centrais das exposições metafísicas e epistemológicas de Platão, onde dentre outras coisas, é-nos apresentado explicações sobre a gênese do Cosmos (κόσμος) e da humanidade, a natureza fundamental do mundo físico, sendo inclusive muito particular a menção breve da Atlântida, de modo que poderemos contemplar mais profundamente a história desse continente mítico no Crítias em si.
“Passaram nove mil anos desde a referida guerra entre os que habitavam além das Colunas [Atlantis] de Héracles e todos aqueles que estavam para aquém [Atenienses];” (Crítias, 108e). É desta forma que inicia-se a narrativa, feita no diálogo pelo personagem homônimo, é este um relato de segunda mão ouvido e transmitido pelo estadista-mítico ateniense Sólon (Σόλων), este, por sua vez, era considerado um dos Sete Sábios da Grécia, como exposto no diálogo Protágoras (Πρωταγόρας). Sólon ouviu o relato primário de sacerdotes do Antigo Egito (muito embora acredite-se que o próprio Platão ouviu esse relato, dadas as viagens que empreendeu para o Egito no período); o Crítias começa expondo a origem sagrada de Atlântida, onde o deus Poseidon (Ποσειδῶν) junto com a mortal Cleito (Κλειτὼ) dá origem a linhagem de reis semideuses Atlantis, sendo seu primaz, Atlas (Ἄτλας), seguido por seus irmãos, que ao todo, foram cinco pares de gêmeos a prole dessa união entre o deus e a mortal. Importante mencionar também que Platão apresenta descrições concisas e completas de fatores como a extensão da ilha, a composição da sociedade e da arquitetura Atlantis, a composição política e a ordem jurisprudencial; em suma, uma monarquia muito parecida com a cidade ideal descrita na República (Πολιτεία), o que faz sentido, visto que a narrativa do Timeu e Crítias se passam no dia seguinte das exposições da República, uma clara intensão de Platão em dar força retórica ao seu Rei-Filósofo (φιλόσοφος βασιλεύς).
Ao longo dos anos, sempre houve uma preocupação, no mundo Germânico em particular, da possível descoberta da Atlântida enquanto local geográfico no mundo. Essa é uma das questões, por vezes, mais debatidas sobre a natureza fundamental do mito da Atlântida relatado no Crítias; afinal, houve ou não um continente massivo na região descrita por Platão? E qual a significância histórica e simbólica para os povos do mundo antigo e no mundo de hoje? Essas questões guardam uma profundidade muito maior do que aparentam em um primeiro olhar, é importante mencionar os esforços arqueológicos que se deram especialmente entre estudiosos alemães, como supracitado, sempre foi uma preocupação em especial para etnólogos, arqueólogos e antropólogos teutônicos, especialmente do meio para o final do século XIX e início do século XX.

Figuras como Heinrich Schliemann foram de grande importância para a fundamentação da ideia da Atlântida enquanto um local físico, suas escavações arqueológicas na atual Turquia encontraram traços de uma civilização antiga que possivelmente remonta até a Era do Bronze, hoje na Provincia de Chanacale (Çanakkale Ili) temos os registros confirmados da grande cidade de Troia (Τροία), que até o momento dos esforços de Schliemann era considerado apenas uma ficção, de modo que hoje sabemos a localização exata, além de termos os registros arqueológicos resgatados, muitos em ótimo estado; Schliemann também fez escavações na cidade de Micenas (Μυκῆναι), na Grécia, em busca de mais material que comprovasse a materialidade de figuras ilustres do mundo antigo, foi então nesse sítio que ele e sua equipe encontraram a Máscara de Agamémnon, objeto lendário que remonta desde a Era do Bronze propriamente. Vale ainda mencionar uma ligação direta de Troia com os mitos nórdicos, pois como expõem Snorri Sturluson em sua Edda em Prosa (Snorra Edda): “O lugar foi chamado de Troia e está localizado na região que chamamos de Turquia… Quando o rei soube da jornada desses asiáticos, que eram chamados de Æsir, ele foi encontrá-los, oferecendo a Odin tanta autoridade em seu reino quanto ele desejasse.” (Edda em Prosa, Prólogo).
O relato de Snorri acima da força e serve para demonstrar a origem mítica não apenas dos deuses nórdicos, mas como a origem desses guerreiros nobres da Era do Bronze, e consequentemente dos povos Atlantis, era divina. O etnólogo Leo Frobenius e o pastor luterano Jürgen Spanuth também nos dão visões interessantes sobre a sobrevivência de registros do continente perdido; Frobenius fez expedições na África, enquanto Spanuth teorizou sobre a sobrevivência de registros mais ao norte do planeta, na atual região da Heligolândia (Helgoland), sendo este um ponto de convergência que ambos os autores diziam haver ligações possíveis da Atlântida física com o atual e já bem conhecido continente das Américas, informação que é validada por Hermann Wieland em seu Atlantis, Edda & Bíblia (Atlantis, Edda und Bibel). O escritor americano Ignatius L. Donnelly, em sua obra Atlântida: O Mundo Antediluviano (Atlantis: The Antediluvian World), também explora longamente as teses pertinentes a localização relatada por Platão, buscando evidências de norte a sul das Américas, inclusive na religião dos antigos povos Maias e Incas, ligando os deuses desses povos, muitas vezes descritos como ‘deuses brancos’, a um possível contato prematuro dos povos Atlantis com os nativos americanos.
Dentre tantas teses é difícil encontrar o que é mais ou menos palpável, temos em Platão, que é a fonte mais antiga sobre o tema, uma fonte já nascida secundaria ou terciaria, se considerarmos que foi realmente Sólon quem transmitiu para Crítias a narrativa, Platão entra como terceiro nessa cadeia; sendo, pois, muito complexo de se mensurar as fontes e conectar os fatos, resta ainda uma possibilidade em que consideremos a Atlântida enquanto mito, mas não um mito ficcional como tendemos a compreender no mundo de hoje, mas um mito transcendental, um mito fundador de caráter, cultura e espiritualidade. O metafísico francês René Guénon é quem nos salva esta visão tradicional do mito da Atlântida, possivelmente a exata mesma visão e hermenêutica que Platão detinha em seu período sobre essa narrativa. Guénon não via a Tradição Atlântida (isto é, a transmissão dos ritos religiosos e espirituais transmitidos pelos próprios habitantes do continente perdido em primeira mão) como isolada no mundo, ou um processo histórico convencional, mas sim como um sujeito simbólico da organização do Cosmos, onde a Atlântida funcionaria como um reservatório secundário para a transmissão dos polos, isto é, derivada de Hiperbórea (Ὑπερβορέα), o verdadeiro e o original centro da Tradição Primordial.
Cito, pois, um trecho do próprio Guénon que nos traz essa noção do papel simbólico-tradicional da Atlântida de modo mais claro: “A própria posição do centro atlante no eixo Leste-Oeste indica a sua subordinação em relação ao centro Hiperbóreo, situado no eixo polar Norte-Sul. Com efeito, embora no sistema completo das seis direções do espaço a conjunção desses dois eixos forme o que se pode chamar de cruz horizontal, o eixo Norte-Sul deve, não obstante, ser considerado como relativamente vertical em relação ao eixo Leste-Oeste, conforme explicamos alhures. — Em conformidade com o simbolismo do ciclo anual, pode-se ainda denominar o primeiro desses dois eixos de eixo solsticial e o segundo de eixo equinocial; e isso nos ajuda a compreender que o ponto de partida atribuído ao ano pode não ser o mesmo em todas as formas tradicionais. O ponto de partida que se pode chamar de normal, por estar em direta conformidade com a Tradição Primordial, é o solstício de inverno; o fato de iniciar o ano em um dos equinócios indica a vinculação a uma Tradição secundária, como a Tradição Atlante.” (Formes Traditionelles et Cycles Cosmiques, 1970).

Pois agora nos resta examinar o ocaso da Atlântida e as razões que contribuíram para tal. No final do Crítias, Platão narra como os reis da Atlântida prezavam pelas virtudes, de modo que mesmo tendo eles várias posses, poder e riquezas materiais insondáveis, eram esses reis também dotados de grande desapego desses elementos materiais, e cultivadores dos ideais mais elevados, de modo que a ânsia pelas posses materiais era detestável, e foi este o sintoma definitivo para o fim desta civilização; nessa mesma conclusão, o filósofo relata que conforme os reis foram perdendo sua ascendência divina, e foram adquirindo características menos nobres (muito pela mistura de sangue com as castas inferiores), mostrando assim um claro enfraquecimento nos laços de sangue desses governantes, o que logo se intensificou com o crescimento dos vícios, desejando eles mais posses, poder e lutando contra esse aspecto de transcendência superior, tão comum aos seres das raças de origem divina.
Neste ponto, a narrativa é abruptamente interrompida, porém é em uma reunião de Zeus (Ζεύς) com os demais deuses olímpicos, antes mesmo de declarar um veredito, que a narrativa se finda. Somos levados a crer que, como narra a tradição posterior ao mito, os povos Atlantis foram afogados na submersão do continente, sendo que alguns poucos sobreviveram, de modo que a eles foi atribuída a visão de serem os supostos ‘Povos do Mar’, conhecidos por fazerem uma série de saques em diferentes civilizações por todo o Mar Mediterrâneo. Desses Atlantis sobreviventes, foram eles creditados também como a linhagem direta e superior de diversas figuras da antiguidade, como os semideuses da Guerra de Troia, ou as figuras semi-míticas do período posterior a Era do Bronze, à exemplo do próprio Sólon; sendo em verdade difícil dizer, pois esses povos saqueadores do final da Era do Bronze tem um surgimento enigmático. De qualquer forma, é historicamente inviável que seja o caso de serem eles os Atlantis remanescentes, pelo simples fato de Crítias começar a sua narrativa dando a data do fim da guerra dos Atlantis contra os Atenienses, e como é indicado no Timeu, o ocaso da Atlântida se deu logo na sequência do fim da guerra, nove mil anos antes a partir do relato de Crítias.
Por fim, devemos sumarizar as duas questões apresentadas acima: sobre a materialidade, ou não, do continente perdido, e a significância deste tema. É notável que há dois aspectos no mito da Atlântida, e como descrito por Guénon, é indiferente a existência física concreta do continente (muito embora não seja descartada essa possibilidade), sendo seu significado muito mais importante para a estruturação do Cosmos do homem Tradicional na Grécia nos tempos da própria narrativa, tal como a orientação dos ideais em busca das virtudes, de modo que, o fato da descrição dos reis Atlantis casar tão bem com o Rei-Filósofo proposto por Platão, não é mera coincidência, mas sim uma ilustração simbólico-alegórica sobre o sentido da busca do ‘Ideal Aristocrático’; elemento este, por sua vez, tão presente nos textos gerais do filósofo e na sua República em particular. É de grande valor entendermos que o mito da Atlântida, sendo um lugar real ou não, nos diz respeito sobre as potencialidades da construção de uma sociedade em cima dos ideais nobres de virtude ante os vícios, e como estes são dois padrões regulatórios do Ser (οὐσία) que distinguem suas capacidades plenas em construtivas ou destrutivas.
