O Ato Civilizacional E A Vida Campeira

Para a existência e consequente subsistência das populações humanas, nenhum período foi potencialmente mais importante do que a Revolução Industrial. Esta, por sua vez, instaurada nos meados do século XVIII, foi responsável pela intensificação dos processos e ampliação do dinamismo nas cadeias produtivas, fortalecendo e criando um grande aumento na manufatura de produtos, desde vestimentas até os alimentos, tudo foi impactado pelos processos tecnológicos aplicados na indústria; sendo que neste contexto se deram os primeiros registros pós-idade média de um grande êxodo rural, e o maior processo migratório do campo para as cidades que se estende até os dias de hoje.

O primeiro processo que possibilitou a ampliação do contingente humano nas cidades foi a agricultura. Antes dos processos industriais se darem nas cidades é importante que tenhamos como nutrir os cidadãos, de modo que, através do aumento populacional, houve um concomitante aumento de produção alimentícia dada a relação de oferta e demanda. O economista inglês Thomas Malthus foi um dos primeiros a prever a potencial relação desproporcional do crescimento populacional com a produção de alimentos, em seu livro Um Ensaio sobre o Princípio da População (An Essay on the Principle of Population) Malthus constata que a produção de alimentos se dava por uma progressão aritmética, enquanto o aumento populacional se dava por uma progressão geométrica; o que Malthus não conseguiu prever, no entanto, era a implementação da tecnologia e dos avanços científicos no campo, ampliados justamente pela Revolução Industrial, sendo que a produção de alimentos também passou a ter uma progressão geométrica, e com uma razão bem superior a progressão da expansão humana. Malthus também enxergava nas guerras, hecatombes e grandes catástrofes a única forma de regular essa crescente populacional desenfreada, de qualquer forma, a produção alimentícia estaria fadada a ter um aumento muito superior nos séculos vindouros.

Com isso em vista, seria assertivo considerarmos que os problemas sociais nas grandes metrópoles não surgiram por um desequilíbrio de qualquer natureza se não pela relação de densidade populacional. Em verdade, o modo como os seres humanos se aglomeraram em seus estágios iniciais de civilização foram muito mais respeitosos com a noção de ‘espaço individual’, algo que contribuiu naturalmente para isso foi a menor quantidade total de contingente humano no mundo, muito embora o aumento deste contingente se deu necessariamente com a maior aglomeração em pequenos espaços urbanos. É notório que isso também representou um processo de troca de capital, onde as propriedades rurais foram se concentrando na mão dos poucos que persistiram no cultivo do solo, enquanto aqueles que correram atrás das riquezas que os grandes centros urbanos ofereciam acabaram frustrados e olhando para trás, já com um poder de compra reduzido e um aumento nos preços das terras pela demanda, foram raros os casos onde esse êxodo rural foi reversível, de modo que as populações urbanas dentro de duas ou três gerações acabaram completamente desconectadas de qualquer herança no campo.

De modo paralelo, podemos notar que a economia agraria também prosperou; em um cenário de menor disputa por terras, grandes latifundiários se formaram, em uma expansão global em diferentes épocas. Nos Estados Unidos, à exemplo da colonização desta nação, o meio-oeste americano foi inundado por pessoas que vinham de uma Europa sem oportunidades para poderem cultivar o solo, um solo mais fértil e mais espaçoso que os vales e montes europeus foi ali encontrado, o que possibilitou através do ‘Homestead Act’ implantado por Abraham Lincoln, uma crescente colonização dessas áreas planas e com alta biodisponibilidade para cultivo, iniciando assim um novo ciclo global de expansão da produção alimentícia, em uma cartada que Malthus jamais conseguiria ter previsto ainda em sua época. O mesmo processo ocorreu muitos anos depois no Brasil, com a criação do ‘Programa de Desenvolvimento dos Cerrados’, muitos dos mesmos europeus que haviam vindo atrás de oportunidades para cultivar o solo encontraram no Brasil terra fértil e apropriada, no entanto uma terra mais pobre em comparação com a do meio-oeste americano, e que só foi possível ser cultivada com o aumento tecnológico consequente das várias etapas de revoluções da indústria global, tanto de fertilizantes, defensivos e estudos geológicos próprios para os biomas em questão.

Assim sendo, podemos observar que a troca do campo pelas grandes cidades não foi morta, muita oportunidade foi gerada dessa lacuna demográfica, tanto de um lado quanto de outros, muitas pessoas conseguiram desfrutar da bonança do enriquecimento das cidades, ao passo que muitos aproveitaram as oportunidades ainda pouco exploradas deixadas no campo. Em verdade, atualmente a maioria das pessoas tem um sentimento de vazio existencial muitas vezes guiado pelo excesso de informação e contatos proporcionado pelas cidades, já que ao longo da história humana nossos grupos de relacionamento sempre foram muitos pequenos, é terminantemente absurdo de um ponto de vista da saúde mental o nível interrelacional que temos hoje, sendo esse quadro agravado pelo uso das telas constantemente e o pouco tempo para a contemplação que nos resta em um dia a dia atribulado repleto de excessos de estímulos dos sentidos.

O sentimento de ‘saudade do campo’ que guia algumas pessoas é relativamente suprido por contatos esporádicos e banais com uma pretensa vida rural, alguns expoentes de um pensamento de retorno dos padrões anteriores aos construídos pela Revolução Industrial como Ted Kaczynski e Pentti Linkola apelam para uma mudança ainda mais radical de posturas frente ao desenvolvimentismo do capitalismo tardio, muito embora a maioria das pessoas de hoje apenas almejem uma casa de campo ou um sítio como um luxo acessório desse processo puramente consumista. Em verdade, as teses de Kaczynski e Linkola expõem uma verdade brutal sobre a natureza humana: a inconsistência da vontade humana. Em sua obra Sobre a Liberdade da Vontade (Über die Freiheit des Willens), Arthur Schopenhauer demonstra como a autoconsciência não pode ser usada para comprovar o livre-arbítrio (Willensfreiheit), já que a vontade humana pode ser constantemente alterada por vieses de ordem física e social, não existe uma consistência plena para o ato puro de uso das faculdades superiores em uma tomada de decisão definitiva; a decisão em si está fadada a um desfecho não necessariamente almejado, de modo que a liberdade da vontade humana está mais subordinada aos contingentes da própria experiência humana do que a uma faculdade de ordem superior, e por consequência, mais certa, como é de fato o livre-arbítrio.

Tal reflexão nos leva a uma conclusão evidente, a vida no campo ter sido trocada por uma vida urbana foi um erro de cálculo da maioria das pessoas ao longo da história recente do desenvolvimento produtivo global. A Revolução Industrial está neste momento em um processo de ampliação de suas potencialidades, o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) tem um impacto gigantesco não apenas nas relações de trabalho e de produção (que de fato terão consequências catastróficas), mas também na própria concepção existencial das pessoas; em um mundo com constante decadência dos aspectos morais e espirituais, a IA chega com força total para poder demonstrar de uma vez por todas que as escolhas dos mais imediatos antepassados, talvez não foi uma escolha sábia. Há um crescente frenesi nas gerações mais novas de um retorno a uma vida simples no campo, um resquício do que a falta de alternativas desse modelo tardio de industrialização e capitalismo tem a oferecer. Uma frase que ficou muito famosa em um encontro relativamente recente do Fórum Econômico Mundial, a política dinamarquesa Ida Auken disse às novas gerações: “Você não terá nada. E será feliz.”; em uma referência a um novo modelo de propriedade geral que se daria pela locação de bens, muito embora essa expressão seja uma pontuação de um processo comum que já acontece especialmente nos países mais desenvolvidos da Europa, não deixa de ser uma afirmação que marca o Espírito do Tempo (Zeitgeist) em que vivemos, onde a trivialidade das coisas é mais concreta que sua permanência.

A vida campeira se mostra como uma melhor opção em todos os sentidos, onde não é necessária uma completa obliteração das zonas urbanas, mas um declínio gradual deve acontecer, de pessoas guiadas pelo mesmo espírito que há alguns poucos séculos começou a mobilizar os trabalhadores do campo massivamente para as zonas urbanas, agora, seus descendentes tendem a fazer o caminho contrário; sem experiência, sem costume ou contato verdadeiro com uma vida que mal conhecem, porém, quase que instintivamente, sabem que é uma melhor forma de se viver dado o atual estado de coisas em que nos encontramos, uma vida mais leve para a alma, e mais sadia para o espírito. É verdade que a vida no campo tem seus desafios, porém também possui um poder diferenciado, o contato com a fauna e flora, de modo sinestésico, tem um poder curativo, sendo essa a resposta para a maior parte das chagas que o Ato Civilizacional moderno deixou nos corpos e corações de todos aqueles que aceitaram, mesmo inconscientemente, o pacto social invisível. A vida campeira, é, pois, a melhor vida.

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