Μῆνιν ἄειδε, θεὰ, Πηληϊάδεω Αχιλῆος οὐλομένην!
Canta, ó deusa, a fúria de Aquiles, o Pelida, mortífera!
-Ilíada, Canto I
Introduzindo a Divindade e a Ira, é assim que Homero (Ὅμηρος), o grande poeta épico do período que carrega seu nome; o Período Homérico, inicia sua epopeia sobre a vingança de Aquiles (Ἀχιλλεύς) e a tomada da lendária cidade de Ílion (Ἴλιον), mais conhecida na posteridade como Tróia (Τροία). Muito embora esse seja o contexto, as obras de Homero se inserem em um período de produção poética chamado de Ciclo Épico (Ἐπικὸς Κύκλος), este em particular sendo um momento onde foram legadas diversas obras, das quais as únicas sobreviventes foram a Ilíada (Ἰλιάς) e a Odisseia (Ὀδύσσεια), além de alguns poemas menores conhecidos como Hinos Homéricos (Ὁμηρικοὶ ὕμνοι). Adensando esse preâmbulo, devemos tomar nota do seguinte fato: o Ciclo Épico seria uma narrativa concisa, não necessariamente sequencial, mas um todo completo e uniforme. Além do próprio Homero, os outros autores que compuseram esse ciclo poético foram: Estasino (Στασῖνος), Arctino (Ἀρκτῖνος), Lesques (Λέσχης), Agias (Ἀγίας), Eumelo (Εὔμηλος) e Eugamon (Εὐγάμων).
Com isso em vista, além dos escassos fragmentos que nos foram legados e que nos permitem ter uma compreensão maior de como o Ciclo Épico estaria estruturado, temos acesso a um amplo contéudo na Ilíada em si. A narrativa se passa no final da Era do Bronze, algo em torno de 1200 a.C., justamente nos últimos dias da Guerra de Tróia, já em seu décimo ano no momento do primeiro verso da obra. A situação introdutória do poema se da quando Agamemnon (Ἀγαμέμνων), conhecido pelo seu proeminente epiteto ‘soberano dos homens’; toma de Aquiles seu espólio de guerra, uma linda jovem chama Briseis (Βρισηίς), a contenda desemboca na recusa de Aquiles de retornar para a batalha, a qual levava com afinco por todos os anos que esteve envolvido no conflito. Agamemnon era o mais poderoso homem da terra naquele momento, porém Aquiles gozava de ser o mais forte guerreiro entre os homens, pois era ele não um homem comum, mas um semi-deus, filho do rei lendário Peleu (Πηλεύς) com a deusa Tétis (Θέτις), além de ser o líder dos Mirmidões (Μυρμῐδόνες), uma tropa dos mais capacitados e temidos guerreiros da época, não só pela liderança do temido Aquiles, mas por serem uma tropa de guerreiros lendários, uma verdadeira brigada de elite de todo o mundo grego no período.
Nesse contexto, temos a relutância máxima de Aquiles em seguir participando do conflito, os deuses tendo papel crucial em todos os momentos da guerra, interferem nas decisões dos homens por todo o épico. O ápice do épico em particular se da durante uma das diversas batalhas, em que Pátroclo (Πάτροκλος), que era primo e companheiro fiel do próprio Aquiles, vestiu a armadura deste, e liderou os Mirmidões em uma invectiva contra um ataque brutal que estava sendo empreendido pelos troianos, sob o comando do príncipe Heitor (Ἕκτωρ); durante o combate, o deus Apolo (Ἀπόλλων) enfraqueceu Pátroclo, permitindo que Heitor o matasse mais facilmente. Após descobrir o ocorrido, Aquiles entra em uma fúria completamente lancinante, algo que vai fundar toda a noção da ‘ira heróica’ em toda a literatura posterior até os dias de hoje, sendo essas cenas descritas com imenso poder e alta virilidade; na narrativa, Aquiles vai até os portões da grande cidade de Ílion, e após clamar pela sua peleja particular com o príncipe de Tróia, algoz de seu primo, Aquiles mata Heitor em uma derradeira batalha, encerrando-se assim o épico com o funeral do príncipe troiano.
Nesse humilde resumo, temos uma noção simples de algo muito grandioso. Toda a obra de Homero é recomendada a leitura, pois além do valor histórico, podemos tirar várias lições de diferentes tipos, dependendo de onde possamos olhar. Uma das coisas de maior valor na Ilíada se da com o heroísmo, muito comum aos personagens do épico, pois é narrado em diversos momentos, diversos nomes de bravos guerreiros, tal como o próprio Aquiles e Agamemnon, já citados, alguns outros nomes de alto valor na narrativa incluem: Ájax (Αἴας), Menelau (Μενέλαος), Nestor (Νέστωρ), Diomedes (Διομήδης) e Odisseu (Ὀδυσσεύς), sendo que este último tem sua própria epopeia posterior narrada pelo próprio Homero. Em síntese, o que agrega a esses guerreiros em nível são seu alto poder e alta capacidade de proeza em batalhas, coisas como a força e a destreza são sempre relatadas de uma forma que aos olhos dos homens de hoje parecem sobrenaturais; a força desses heróis também é brutal, a lança de Aquiles é descrita como sendo tão pesada que apenas ele conseguia levanta-la, sendo que o seu arremesso da lança transpassava escudos e armaduras até mesmo em dezenas de metros. Para qualquer um que tenha o mínimo de noção, é evidente como essas descrições são absurdas para termos físicos, e especialmente, para termos humanos.
Naturalmente, Homero fazia uso da constante influência e graça dos deuses no conflito troiano, então é possível que haja algum artíficio textual e poético para incrementar o impacto narrativo dos atributos dos heróis como são descritos, muito embora seja de uma extrema ingenuidade pensar que os relatos não possuem um fundo de verdade, sendo que as descrições de estatura, constituição e feitos de força física são reforçados em outras literaturas clássicas, até mesmo de outras culturas, e algumas até mais próximas de nossa época cronologicamente. O que não muda é, a constituição do homem do passado era outra, eram homens elevados, de alta estirpe moral, intelectual e, principalmente, espiritual; eram homens de tão diferente grau e poder, que os deuses habitavam em meio a eles, propiciando suas vontades e ajudando em suas demandas, como se estes homens tivessem uma conexão diferente com a própria realidade que está à disposição nas narrativas.
Tal poder e nobreza é validado pelos semblantes observáveis nas narrativas homéricas: o caos e a tormenta, como vemos mais tarde com Odisseu, não são o bastante para manterem-o longe de casa, a demanda da Odisseia é talvez uma das mais difíceis, se não a mais difícil de todas de se concretizar. Em suma, após a guerra ser findada pela genial ideia de Odisseu de construir um cavalo de madeira gigante, e criar uma situação onde os troianos acreditassem que aquele fosse um presente dos deuses, para adentrar Troia, e por dentro, propiciar a destruição da cidade; Odisseu se torna um dos heróis mais sagazes e prestigiados pela sua argúcia e inteligência, atributos que ele carrega em seu epiteto ‘dos mil ardis’. Sua trajetória segue, como todos os sobreviventes do conflito, Odisseu e seus homens buscam voltar para a casa, para a ilha de Ítaca (Ιθάκη), onde sua esposa Penélope (Πηνελόπεια) e seu filho Telêmaco (Τηλέμαχος) esperam, por anos, já descrentes de sua volta, onde sequer creem que ele ainda esteja vivo.
Após passar por diversas provações, em diversos episódios com criaturas míticas e situações mitológicas, onde toda a sua tripulação foi obliterada, Odisseu atinge Ítaca; ele chega como um indigente, avaliando quem é leal a ele mesmo após esse tempo e quem não é. Na conclusão de sua demanda, Odisseu tem que purgar sua casa de diversos homens que cortejam Penélope ininterruptamente desde sua partida, tentando coagi-la a se casar com algum deles, de modo que ao propor um teste com o arco de Odisseu, o qual apenas o próprio consguia armá-lo, finalmente o rei de Ítaca, que já havia se apresentado para Telêmaco, rouba a cena, conseguindo armar o arco, e após revelar-se para todos agora de uma vez, chacina os homens que covardemente invadiram e monopolizaram sua casa por anos, em particular, temos na morte de Antínoo (Ἀντίνοος) a epítome do texto odisseico. Após assumir o controle de seu reino novamente, as famílias dos homens que foram trucidados prometem vingança, e na intenção de encerrar o ciclo de violência, a deusa Atena (Αθηνά), apoiada pelo próprio Zeus (Ζεύς), intercede e encerra a contenda, garantindo a glória de Odisseu.
A lição que tomamos da Odisseia, em contraste com a Ilíada, é a da humildade; não uma humildade forçada por um espírito fraco e empobrecido, mas uma humildade em glória, uma humildade que transmite o aprendizado da dor e dos fracassos frente a soberba e o orgulho, os reais inimigos da sabedoria (σοφία), tão cara aos gregos desde já deste período. Após sobreviver a uma guerra de anos, ver vários heróis de alta estirpe se esvaindo e sendo derrotados, o coração do homem pode vascilar; Odisseu por sua vez, permitiu que a soberba transparecesse diversas vezes em sua jornada de volta para seu lar, e foi devidamente punido pelos deuses, em particular por Poseidon (Ποσειδῶν), que após ter seu filho ciclope, Polifemo (Πολύφημος), ferido gravemente por Odisseu, se encoleriza e castiga a ele e toda a sua tripulação até o derradeiro momento de seu retorno a Ítaca, sendo que sua vida é a única poupada de toda a tripulação graças a intervenção de Atena. Podemos ver então que o retorno de Odisseu é marcado mais uma vez por esse diferencial, que é a estirpe mítica do homem homérico, e ainda assim, o homem da era do bronze, como um todo.
Essa noção de homem heróico, com um heroísmo nesse sentido, de alma e consciência elevados, está perdida. É difícil, para não dizer impossível, conceber um ser humano pautado não apenas em valores e princípios, mas atos de um outro nível; o herói homérico vai muito além do homem de palavras, estudos e contratos (este último o mais comum na contemporaneidade, e em sua forma mais vil), ele era um homem da ação, da ação heróica, não enquanto ideal, mas enquanto objeto de sua própria transcendência. O objetivo do herói homérico é a fama póstuma, pois ele sabe que a vida acaba na primeira lança que partir o seu crânio, logo, não é de almejar uma vida longa, se desprovida de glórias; a vida longa está mais para um fardo, pois nesta situação o Hades (ᾍδης) é a única certeza, enquanto no fervor da batalha, no auge do poder dos campeões, os Campos Elísios (Ἠλύσιον) são a honra para aqueles honrados e heróicos, que fizeram de sua vida não apenas pensamentos de grandeza e honra aos deuses, mas que com atos nobres enriqueceram seu espírito e honraram a terra por onde passaram. Esse é o grande legado da Era do Bronze para a humanidade, muito embora, um legado esquecido e distante do Ethos (ἦθος) que permeia o mundo de hoje; ainda assim, uma mensagem válida de ser vivida e relembrada.


